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Debate feminista

versión On-line ISSN 2594-066Xversión impresa ISSN 0188-9478

Debate fem. vol.69  Ciudad de México  2025  Epub 13-Mayo-2025

https://doi.org/10.22201/cieg.2594066xe.2025.69.2458 

Artículos

Afeminação, Viadagem e Futebol LGBTQIAPN+

Afeminamiento, Amaneramiento y Futbol LGBTQIAPN+

Effeminacy, Affectation and LGBTQIAPN+ Football

Vanrochris Helbert Vieira* 
http://orcid.org/0000-0002-0579-9064

*Universidade Federal de Santa Catarina, Betim, MG, Brasil. vanrochris@gmail.com


Resumo:

O Bharbixas, primeiro time de futebol LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte, construiu seu perfil identitário em torno da afeminação e das ideias de “bicha” e “viado”. Esse posicionamento esteve envolvido com conflitos entre essa equipe e os demais times LGBTQIAPN+ brasileiros. Dessa forma, a temática da afeminação se apresenta como central para o entendimento da formação do futebol LGBTQIAPN+ belo-horizontino. A fim de desenvolver um entendimento sobre essa temática, o artigo traz uma discussão sobre a trajetória de vida de meninos e homens afeminados e uma reflexão sobre os conceitos de bicha e viado.

Palavras-chave: Afeminação; Gays afeminados; Homossexualidade no Brasil; Futebol gay; Futebol LGBTQIAPN+

Resumen:

El Bharbixas, primer equipo de futbol LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte, construyó su perfil identitario alrededor del afeminamiento y de las ideas de “joto” [bicha] y “amanerado” [viado]. Tal posicionamiento llevó a este equipo a involucrarse en conflictos con otros equipos LGBTQIAPN+ brasileños. Así pues, la temática del afeminamiento se presenta como central para entender la formación del futbol LGBTQIAPN+ belo-horizontino. Para comprender esta temática, el artículo ofrece una discusión de la trayectoria de vida de niños y hombres afeminados y una reflexión acerca de los conceptos de joto y amanerado.

Palabras clave: Afeminamiento; Homosexuales afeminados; Homosexualidad en Brasil; Futbol gay; Futbol LGBTQIAPN+

Abstract:

Bharbixas, the first LGBTQIAPN+ football team in Belo Horizonte, built its identity around effeminacy and the ideas of being a “fag” [bicha] and “effeminate” [viado]. This position has led this team to become involved in conflicts with other Brazilian LGBTQIAPN+ teams. The theme of effeminacy is therefore presented as central to understanding the creation of LGBTQIAPN+ football in Belo Horizonte. To understand this topic, the article offers a discussion of the life trajectory of effeminate boys and men and a reflection on the concepts of “fag” and “effeminate.”

Keywords: Effeminacy; Effeminate Homosexuals; Homosexuality in Brazil; Gay Football; LGBTQIAPN+ Football

Introdução1

A discussão deste artigo deriva de uma pesquisa que buscou responder de que modo a manifestação de gênero dos jogadores dos dois primeiros times de futebol LGBTQIAPN+ de Belo Horizonte - Bharbixas e ManoTauros - relaciona-se com o cenário de formação do futebol LGBTQIAPN+2 na capital mineira. Times de futebol LGBTQIAPN+ são equipes amadoras formadas exclusivamente por pessoas LGBTQIAPN+, majoritariamente homens gays. Ambos os times pesquisados foram fundados em 2017, ano em que houve um boom na criação de times de futebol LGBTQIAPN+ no Brasil, além do surgimento da LiGay - a liga nacional desses times - e do Champions LiGay - campeonato nacional dessas equipes. Foram realizadas entrevistas com sete membros e ex-membros das duas equipes, entre 2018 e 2023.3 Também foram estabelecidas observações participantes em peladas, treinos e jogos dos dois times, no mesmo período.4 Adicionalmente, foi realizada uma etnografia de tela nos perfis dos dois times no Instagram e no Facebook.5

O futebol LGBTQIAPN+ surge no Brasil num contexto em que o futebol convencional é intimamente ligado à identidade brasileira. Freitas (2007: 3) destaca que, através desse esporte, “acontece um patriotismo que não consegue ser alcançado por nenhum outro fenômeno, nem mesmo pelo carnaval ou pela religiosidade”. Por isso, não é incomum escutarmos que o Brasil é o país do futebol. No entanto, historicamente, esse esporte também é um espaço de valorização da masculinidade tradicional e de exclusão de homens homo-orientados. Eilene Faria (2009) demonstra como essa dinâmica se reproduz na periferia de Belo Horizonte. A partir de uma perspectiva multissituada, ela aborda a prática do esporte no ambiente escolar, em projetos sociais e nas ruas da cidade. A autora demonstra que, nesses espaços, os meninos adquirem habilidades necessárias para jogar futebol, mas também para se comportarem como homens, de modo que a prática desse esporte funciona como um ritual de aquisição da masculinidade.

Faria (2009) observa também como os praticantes mais velhos vigiam a masculinidade dos mais novos e os corrigem. Ela relata ter acompanhado um professor advertindo dois meninos que estavam se tocando durante o treino, mandando que eles parassem de “viadagem”. Tradicionalmente, nas escolas brasileiras, meninos e meninas são separados de forma binária nas aulas de Educação Física, praticando esportes diferentes. Enquanto os meninos jogam futebol, as meninas jogam vôlei ou queimada. No entanto, habitualmente, menines e meninos afeminados se agrupam com as meninas nesse processo. Assim, eles acabam excluídos da prática masculinista do futebol, o que gera uma falta de familiaridade dessas crianças com o esporte.

O Bharbixas, primeiro time de futebol LGBTQIAPN+ de Minas Gerais, destacava-se no cenário brasileiro por sustentar um discurso de orgulho por ter uma identidade afeminada. Dentro do espaço tradicionalmente homofóbico do futebol, esse time enfrentava posicionamentos identificados como afeminofóbicos mesmo por parte de outros times LGBTQIAPN+. Desse modo, no cenário de formação do futebol LGBTQIAPN+ belo-horizontino, a temática da afeminação se mostrou fundamental para o entendimento das dinâmicas realizadas. Como veremos a seguir, além de ter a palavra “bicha” no nome, o Bharbixas também tem um veado como mascote. No Brasil, “bicha” e “viado” são os termos mais utilizados para fazer referência a homens afeminados. Leandro Silva (2014) fala sobre a semântica da palavra “viado”, argumentando como o surgimento e o uso desse termo estão entrelaçados com a própria dinâmica cultural e identitária brasileira.

Viadagem é ilegítima.Vem do menos legítimo ainda viado.Viado é a pronúncia brasileira do nome do cervo, o veado. Viado tem essa origem, um meneio de pronúncia dessa língua toda própria, de-sviada, o português do Brasil. E da pronúncia errada vem o insulto. Viado hoje é ampla e reconhecidamente admitido como injúria a homens gays; veado continua a ser o bicho. Só se sabe a diferença entre um e outro procurando pelo contexto; ou na escrita (Leandro Silva 2014: 3, grifo do autor).

De fato, no Brasil, a palavra “viado” remete a dois termos. O primeiro é veado, como destaca Leandro Silva (2014), animal representado de forma afeminada no filme Bambi (1942), da Disney. O segundo é a palavra “transviado” (sinônimo de “desviado”), usada no passado para se referir a homens gays: aqueles que se desviam do caminho correto. A palavra “bicha” também remete a animais, os “bichos”, de forma genérica. O uso da palavra no feminino, no entanto, denota a afeminação dos homens assim nomeados. Leandro Silva (2014: 3) explica o que significa essa animalização presente tanto no termo “viado” quanto no “bicha”: “o bicho (como bicha) está na vontade de tornar animal - leia-se: menos humanas - essas pessoas des-viadas”.

Para buscar discutir como a afeminação dos membros do Bharbixas se relaciona com a criação do futebol LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte, irei debater, na próxima seção, os desafios enfrentados por homens afeminados no contexto latino e brasileiro. Na seção seguinte, trarei algumas considerações sobre a forma como essa temática é vista nesta pesquisa, buscando complementar o cenário de investigações que têm sido traçadas a esse respeito. Então, abordarei as figuras do “viado” e da “bicha”, tão significativas para a visão cultural brasileira sobre gays afeminados e também para a autoimagem desse time. Por fim, analisarei algumas falas dos dois primeiros times de futebol LGBTQIAPN+ belo-horizontinos, Bharbixas e ManoTauros, sobre a afeminação dos membros do primeiro time.

A trajetória do gay afeminado

Giancarlo Cornejo (2011) faz uma autoetnografia, refletindo sobre as experiências vivenciadas por ele na sua infância em Lima (Peru) nos anos 1990. O autor conta que a primeira vez que ele foi chamado de “maricón” foi na pré-escola, com quatro ou cinco anos. Uma colega de classe convidou toda a turma para a festa de aniversário dela, menos Cornejo. Ele questionou a colega, e ela disse que não iria convidá-lo. Para dar fim à importunação do menino, ela deu um tapa nele e o chamou de “maricón”, gritando. Segundo Giancarlo Cornejo (2011), nesse dia, ele descobriu o poder de ferir que têm as palavras.

No Brasil, “bicha” e “viado” são os termos mais usados como “insultos” contra meninos afeminados, similarmente à forma como o termo “maricón”, apontado por Giancarlo Cornejo (2011), é usado no contexto peruano e de outros países da América Espanhola. Ao fazer referência à animalização, os termos brasileiros “bicha” e “viado” têm a peculiaridade de tirarem não só a dignidade, mas também a humanidade dos meninos e homens que não se adéquam aos padrões de masculinidade. Eles são vistos como sujeitos incompetentes para ocupar o lugar masculino que lhes foi atribuído, ou pior, que “decidem” cometer o “erro” de abrir mão desse status e se aproximar do feminino, subalternizado e visto como inferior. Nessa mentalidade, os sujeitos que tornam a si mesmos menores, por escolha ou incompetência, são seres sob os quais os “homens” podem pisar, assim como eles pisam em bichos de outras espécies.

No entanto, a memória trazida por Giancarlo Cornejo (2011) aponta para alguns elementos importantes sobre a vivência de meninos afeminados não só no Peru, mas também no Brasil. Um deles é que essas crianças são frequentemente “sentenciadas” como “maricones” ou “bichas” antes mesmo de saberem o que isso significa ou até mesmo de terem sentido qualquer atração sexual ou romântica por outros meninos pela primeira vez. É provável, inclusive, que muitas crianças “agressoras” também não entendam o que significa a “sentença” que estão dando. Assim, a afeminofobia se apresenta como estrutural, preexistindo à consciência de cada pessoa. Outro ponto é que os corpos de meninos afeminados são vistos como passíveis de disciplinação, seja moral ou física, até mesmo por outras crianças.

Giancarlo Cornejo (2011) nos conta, ainda, que quando a escola informou à sua mãe e ao seu pai sobre a hostilização das outras crianças contra ele, seu pai não hesitou em colocar a culpa nele e não nas outras crianças ou na escola. Essa memória nos aponta para o fato de que o menino afeminado é frequentemente visto como o culpado das próprias agressões que sofre. Os outros estão certos em agredir, às vezes até mesmo para a família do agredido. Por isso, a infância do menino afeminado é marcada pela culpa e pela vergonha. Giancarlo Cornejo (2011) conta como chorava angustiado antes de dormir por ter esse “problema”.

A vergonha é um sentimento importante na minha vida, e assim tem sido por muito tempo. Sinto vergonha de não ser heterossexual, de não ser o filho que meu pai havia querido, da minha feiura, de não ter aquilo grande, de não ser um bom amante, da minha feminilidade, da minha indignidade. Na verdade, do que sinto mais vergonha é de sentir tanta vergonha (Giancarlo Cornejo 2011: 90, tradução minha).

Discutindo outras facetas da afeminação na vida adulta, Daniel Almeida (2011) faz uma análise de perfis de belo-horizontinos cadastrados no site de relacionamentos masculino ManHunt.net. As pessoas cujos perfis foram analisados buscavam afastar de si o estereótipo de afeminado, usando palavras e expressões para se descreverem como “nada afeminado”, “totalmente discreto” e “cara e jeito de macho”. Elas também faziam o mesmo movimento para caracterizar as pessoas que desejavam: “não curto pessoas afeminadas”, “busco macho” e “mandem mensagem os discretos, que tenham jeito e voz de homem”. Nesse contexto, a palavra “discreto” aparece como alguém que não expõe sua sexualidade publicamente, mas é usada, principalmente, como antônimo de afeminado. Segundo Ramos e Cerqueira-Santos (2020: 168), “o ‘não sou/não curto afeminado’ é exaustivamente difundido nesses ambientes. Justificado muitas vezes por ‘gosto pessoal’, a intensa quantidade de restrições e mensagens de ódio não é capaz de esconder a antiafeminação presente”.

Daniel Almeida (2011) também demonstra outra forma de esses sujeitos afastarem de si a ideia de afeminação: dizendo ser “fora do meio”. O discurso de não frequentar o “meio gay” caracteriza esse “ambiente” de forma negativa, pois o relaciona com a afeminação e o distancia da figura valorizada do discreto. Assim, o gay “fora do meio” se mostra superior aos que frequentam ambientes associados à comunidade LGBTQIAPN+. Junto com o “fora do meio” costuma vir o “não assumido”, porque estar no meio implica na publicização da sexualidade.

A pesquisa de Daniel Almeida (2011) nos indica que existe uma correlação entre diferentes características na hora de pressupor que alguém seria afeminado. Se a pessoa é afetuosa,6 “frequentadora do meio”, assumida, militante ou “lacradora”,7 é esperado que ela seja afeminada. Da mesma maneira, também pesa sobre os passivos8 a pressuposição da afeminação, de forma que eles precisam se declarar e se provar amasculados9 para serem dignos do interesse dos ativos. Oscar Lopes (2017), por sua vez, analisa perfis do site Disponivel.com. Segundo esse autor, existe uma necessidade de se isentar da afeminofobia logo após apresentá-la. Ele cita um trecho da descrição de um dos perfis analisados: “não curto afeminados nem bichinhas, nada contra, cada um na sua” (Oscar Lopes 2017: 409, grifo meu). Por outro lado, ele relata a existência de perfis de afeminados que apresentam uma resistência ao padrão encontrado nesse tipo de rede, como pode ser visto na descrição deste usuário: “não sou discreto, porque pra mim discreto é o viadinho que tenta ser macho (quero ser feliz, é o que importa)” (Oscar Lopes 2017: 420).

Fernandes (2013) chama de “mercado amoroso/erótico gay” todos os processos que demarcam o que é um corpo masculino atraente para homens não heterossexuais. Ele destaca a importância das representações sociais e do papel do capitalismo nesse cenário, com o oferecimento de produtos e serviços. Nesse sentido, os padrões valorizados em sites e aplicativos de relacionamento gay também são os que se encontram na mídia e, inclusive, no mercado pornográfico (Dall’Ago e Rocha 2019). Ramos e Cerqueira-Santos (2020) explicam que os corpos afeminados são vistos como abjetos. Afastar-se deles é afastar-se do estigma que recai sobre os homens não heterossexuais, sendo os afeminados o expurgo desse grupo, absorvendo para si a condenação. Isso é o que gera nojo e repulsa e não apenas falta de desejo.

Além disso, Fernandes (2013) nos lembra de que o gay afeminado é extensivamente representado na mídia como o palhaço, o “bobo da corte”, sendo, por isso, “ridículo”, em todos os significados da palavra. O menino afeminado não só aguenta os insultos e a violência física. Ele também tem que aguentar o riso, a ridicularização. Nesse contexto, as bichas afeminadas seriam as próprias responsáveis pelo preconceito que existe contra os gays em geral. Por serem escandalosas e não se darem ao respeito, elas manchariam a imagem de toda a comunidade. Assim, mais uma vez, como na violência sofrida na infância, a culpa é dos afeminados, não da antiafeminação.

Tensionamentos na discussão sobre afeminofobia

Nas discussões em torno do desejo ou não por afeminados, a afeminação costuma ser vista como uma característica unidimensional, ou seja, como se só houvesse um jeito de ser afeminado, e não vários. No entanto, se considerarmos que podem haver diferentes experiências de afeminação, e não apenas uma, seria possível se sentir atraído por homens com determinadas características consideradas afeminadas e com outras não? Se um sujeito só se sente atraído por pessoas com aparência masculina, há contradição em não se sentir atraído por alguém que se identifica como homem, mas tem uma aparência que ele considera feminina? Se um homem homo-orientado se sente atraído por uma pessoa com uma aparência próxima do que ele considera feminino, ele não estaria, de certo modo, afastando-se de uma homossexualidade “estrita” e caminhando no sentido da vivência de um desejo pan-orientado?10

Acredito que seja importante que esses questionamentos sejam realizados para que essa discussão não se estabeleça de forma rasa, moralista ou binária. Com toda certeza, se a criança afeminada sofre bullying na escola, há um grande problema público nisso. Do mesmo modo, mensagens contra a afeminação em aplicativos e sites de relacionamento são afeminofóbicas. As pessoas não costumam colocar, com a mesma naturalidade, nesse tipo de perfil, mensagens de ódio contra outros grupos, como os ligados a perfis raciais ou geográficos, por exemplo. Se existe uma licença e uma aceitação para que o discurso contra afeminados possa ser construído nesses ambientes é porque, de fato, a antiafeminação é naturalizada neles. Se, ainda, um homem homo-orientado sente aversão, repulsa ou raiva por outros homens afeminados, há, sem dúvida, um perigoso sentimento de ódio afeminofóbico. Nesses casos, concluir que há uma questão social se sobrepondo a um suposto “gosto pessoal” parece ser muito coerente. Mas se um homem não heterossexual apenas não sente atração por outros que têm certos tipos de aparência ou comportamento que ele considera femininos, isso não me parece algo que possamos automaticamente relacionar com as manifestações anteriores.

Certamente o nosso “gosto” é social. Por isso, mesmo dentro do gênero pelo qual nos atraímos, interessamo-nos por pessoas com determinadas características e outras não - como as que têm corpos ligados a padrões hegemônicos (Moura 2022). Mas, tratando-se de orientação sexual, há limites para o balizamento dos nossos “gostos”, e - com exceção de pessoas pansexuais - esses limites se dão pela manifestação de gênero11 da outra pessoa, que a liga à masculinidade ou à feminilidade. Esses são, enfim, os alvos dos nossos desejos sexuais. Afinal, a identidade de gênero da pessoa é algo que ela define internamente. Mas a nossa atração sexual é, ao menos para as pessoas alossexuais, definida no corpo.12

Éimportante, no entanto, não esquecermos de que, apesar de as identificações de gênero se construírem a partir de processos individuais, as identidades em geral têm natureza social e política. Tomaz Silva (2014) ressalta que elas são inventadas linguisticamente, não preexistindo às construções sociais. O autor explica que isso se relaciona às dinâmicas de poder em torno delas, pois as identidades são impostas e criam hierarquias, definindo vivências possíveis ou não. Assim, quando os sujeitos fogem às normas, tornam-se “outros” passíveis de controle e punição. É o caso dos meninos afeminados, a quem a masculinidade é imposta, mas não exercida.

Por outro lado, há homens cujo desejo é direcionado particularmente para afeminados, inclusive, para os que têm determinadas vivências específicas de afeminação. É o caso de gays jovens usualmente afeminados chamados de twinks, por exemplo. No mercado sexual e amoroso de homens não heterossexuais, esse subgrupo conta com um número muito significativo de perfis que buscam por ele. Entretanto, se algumas vivências de afeminação podem ser mais desejadas, outras também podem ser mais estigmatizadas, como no caso de gays idosos afeminados, chamados pejorativamente de “mariconas” no Brasil. Assim, o corte etário, por exemplo, pode ser uma interseccionalidade com a manifestação de gênero no que tange à afeminofobia.

De todo modo, acima de tudo, é preciso ressaltar que, apesar de toda a afeminofobia, pessoas afeminadas também fazem sexo, têm relacionamentos e são amadas. É preciso que não continuemos essa discussão mantendo o afeminado no lugar de uma infelicidade fatal. Afeminados têm, sim, que enfrentar muitos problemas, mas eles os enfrentam e, como todas, todos e todes nós, às vezes os vencem e às vezes não. De qualquer forma, se há muitas pessoas que não se sentem atraídas por afeminados, elas não são todas. Há também muitas, muitos e muites de nós que desejam e amam pessoas afeminadas.

Leitura da bichisse e a viadagem a partir da ótica da manifestação de gênero

Homens afeminados não sofrem preconceito porque são gays. Afinal, homens afeminados podem ser heterossexuais, e homens amasculados podem ser gays. Portanto, não há relação direta entre afeminação e orientação sexual. Os homens afeminados também não sofrem preconceito porque são trans. Afinal, se eles se identificam como homens, a sua afeminação não faz com que eles deixem de ser cis. No entanto, os homens afeminados sofrem preconceito porque se acredita que eles sejam gays ou que eles “queiram” ser trans. Portanto, a afeminofobia também é homofobia e transfobia, mesmo que os alvos do preconceito não sejam gays ou trans. Em outras palavras, o preconceito contra homens afeminados não tem ligação direta com a sua sexualidade nem com a sua identidade de gênero. Ele está ligado à sua manifestação de gênero, que é a forma como a aparência e o comportamento de um sujeito são lidos pelos demais a partir de referências sociais. A manifestação de gênero é uma variável ligada ao gênero, mas atribuída também à sexualidade, uma vez que se pressupõe que pessoas com determinadas manifestações de gênero teriam determinadas orientações sexuais. Nesse sentido, palavras como “bicha” e “viado” estão, num primeiro momento, mais ligadas ao gênero do que à sexualidade.

A questão da afeminação e da antiafeminação apresenta-se como uma interlocução entre gênero e orientação sexual. Para ser compreendida, precisa ser observada no campo da orientação sexual, mas refere-se insistentemente às normas de gênero. Tal entrelaçamento produz um fenômeno complexo que confunde os próprios protagonistas, seus pares e a sociedade (Ramos e Cerqueira-Santos 2020: 169).

Há muitas décadas, o movimento LGBTQIAPN+ vem tentando separar as identidades não cisheteronormativas em categorias distintas: identidade de gênero, orientação sexual, anatomia sexual, etc. A identidade de gênero seria a forma como o sujeito se identifica em relação a gênero: homem, mulher, travesti, não-binárie, etc. As identidades de gênero poderiam ser cis ou trans: cis seriam aquelas que correspondem ao gênero de designação, e trans aquelas que divergem dele. A orientação sexual indicaria por quem a pessoa se sente atraída: heterossexual, homossexual (gay, lésbica), bissexual, assexual, pansexual, etc. A anatomia sexual diria respeito à adequação ou não dos corpos a designações binárias ao nascer: endossexual ou intersexual.13 A categoria queer serviria como um “coringa não identitário” nesse esforço, abarcando sujeitos não normativos que não se encaixam nessas identidades ou passeiam por elas sem se fixar em nenhuma. Todavia, a impossibilidade de fugirmos completamente das identidades acaba dando origem a essa “identidade guarda-chuva” que responde pelos sujeitos que tentam escapar, mas são enlaçados de novo nas tramas da identidade por essa categorização do movimento. Nesse sentido, a palavra queer também acaba sendo usada, em alguns momentos, para representar a comunidade inteira, no lugar da sigla LGBTQIAPN+, deslocando-se totalmente do sentido que tem dentro da própria sigla.

No entanto, o que quero ressaltar é uma limitação bem específica de toda essa categorização: a ausência das categorias “bicha” e “viado”. A sigla da comunidade LGBTQIAPN+ não tem “V”, e o “B” que existe nela significa outra coisa. As bichas e os viados estariam incluídas e incluídos dentro do “G”. Mas a divisão entre sexualidade e gênero faz sentido quando olhamos para essas identidades? Para fins analíticos, bichas e viados deveriam mesmo ser vistos como parte da categoria gay ou como categorias distintas que fazem uma interseção com ela? Para Cornejo (2011), a afeminofobia está ligada à necessidade de desvinculação entre a homossexualidade e a transgeneridade, uma vez que a transgeneridade é vista como menos legítima. O autor problematiza essa desvinculação: “minha intenção é resgatar certas conexões e superposições entre a transgeneridade e a homossexualidade” (Cornejo 2011: 86, tradução minha). Eccel et al. (2015: 4) corroboram esse tipo de problematização ao afirmarem que “as práticas sexuais são simultâneas e inseparáveis das práticas de gênero”. Ainda Lopes (2017: 411) acredita que a afeminação estabelece “uma relação entre gênero e orientação sexual”. Nesse mesmo sentido, Colling et al. (2019) também questionam os limites entre cisgeneridade e transexualidade a partir de gays afeminados.

Ainda que não sejam pessoas que se identifiquem como trans, elas [as “gays afeminadas”] também não são facilmente identificadas como cisgêneras. E quando são identificadas ou se identificam como cisgêneras, elas acabam por evidenciar que existe uma variedade na cisgeneridade. E é sobre essa variedade que talvez valha a pena pensar e propor novos neologismos capazes de nomear e, principalmente, provocar outras reflexões (Colling et al. 2019: 31).

Pensando sobre o significado e a pertinência das categorias bicha e viado, cabe refletir também sobre a legitimidade dessas palavras. “Bicha” e “viado” são termos historicamente usados para se referir de forma pejorativa a determinados sujeitos. Entretanto, também são formas com as quais esses próprios sujeitos frequentemente se tratam e, algumas vezes, como preferem se autodefinir. Nesse sentido, essas palavras carregam uma dicotomia: podem ser ofensivas ou afirmativas, dependendo do contexto. Traçar os limites entre esses dois usos não é simples. Uma primeira ideia, defendida com frequência, é a de que apenas as bichas e os viados podem se chamar dessa forma. Assim, uma pessoa cis hétero não poderia usar essas palavras para se referir a uma pessoa LGBTQIAPN+, mas pessoas dessa comunidade poderiam se referir a si mesmas e umas às outras utilizando essas palavras. Uma segunda perspectiva, mais subjetiva, seria pensar não a partir de quem fala, mas sim da intenção do uso dessas palavras.

Pode ser difícil definir objetivamente como identificar se as palavras bicha e viado estão sendo usadas de forma pejorativa ou não, mas talvez seja menos difícil fazer essa identificação na vivência de cada situação. A nossa linguagem tem diversos sinais que apontam para o significado que queremos dar para cada palavra durante a interação: o tom de voz, a ênfase em alguma palavra, os gestos, as expressões faciais, os risos, os silêncios, etc. Uma forma que se destaca como uso ofensivo dessas palavras, por exemplo, é colocá-las no diminutivo: “viadinho” e “bichinha”. Nesses casos, o diminutivo marca inferiorização, tal como em “mulherzinha”, por exemplo. Quem cresceu sofrendo violência verbal por causa de sua manifestação de gênero costuma saber muito bem como fazer esse tipo de identificação. Nesse caso, qualquer pessoa poderia usar as palavras viado e bicha, desde que não seja de maneira pejorativa.

A palavra “viado”, em especial, carrega um interessante terceiro uso que se relaciona com os outros dois já citados. É que ela também costuma ser usada como vocativo em interações entre amigos homens heterossexuais. Não me refiro a quando um homem heterossexual chama outro de viado para ofendê-lo, mas sim quando essa palavra é inserida displicentemente no meio das frases entre dois amigos, com um significado semelhante a “cara”: “Você não vai lá hoje não, viado?”, “Pô, viado, eu não tou querendo ir lá não”. O “viado”, aqui, surge como um jogo: uma maneira provocativa, mas também carinhosa de tratar o outro, porque demarca uma brincadeira entre amigos. A palavra colocaria em risco a masculinidade do outro, mas o outro devolve com a mesma palavra, e ambos sabem que a masculinidade de nenhum está de fato sendo questionada porque é tudo uma piada. Nesse caso, os viados mesmo, que são realmente viados, são os que continuam sendo “ridículos”. Leandro Silva (2014) comenta a polifonia da palavra viado.

Viado é um insulto, o mais comum usado neste país. Viado também é uma forma familiar, carinhosa, identitária, amistosa usada pelos viados, isto é: homens homossexuais, entre si e com outras pessoas. De uma palavra não se espere fidelidade: ela rompe os cercos para se dar à violação de qualquer um. Essa disponibilidade provocativa da língua é nosso maior bem.Viado, como ofensa e como estima, é usado indiscriminadamente entre os falantes da língua brasileira (Leandro Silva 2014: 4).

Outra questão em torno das categorias bicha e viado é que elas são locais e, portanto, dizem de formas de viver o gênero e a sexualidade que são nossas, e não importadas de modelos genéricos internacionais, como a palavra “gay”, por exemplo. Torres e Fernandes (2021) denunciam o perigo de categorias estrangeiras fagocitarem a miríade de identidades locais. Quantas identidades podem ser invisibilizadas pela categoria “gay”? Os autores destacam que cada um deve ter o direito de se chamar da maneira como quiser, e que os sistemas classificatórios variam de acordo com outros pertencimentos, como raça e classe. Nesse sentido, podemos dizer que “gay” é uma categoria muito mais higienizada que bicha e viado. Na verdade, o que esses autores mais alertam é para o risco das nossas identidades serem definidas de forma colonialista. A adoção de identidades globais, como “gay”, implica nesse problema.

Bharbixas e o orgulho de ser afeminado

Leandro Brito e Mônica Santos (2013) destacam que o esporte se relaciona à existência masculina e constitui uma forma de vigilância dos corpos de homens e meninos. Através da Educação Física, ele contribui para a formação das identidades masculinas e funciona como um rito de passagem para que o menino se torne homem. Por causa disso, ocorre uma exclusão das meninas do futebol, que é compartilhada por menines e meninos afeminados. Isso porque eles se distanciam do masculino e se aproximam do feminino, sendo, por isso, colocados binariamente do lado das meninas na divisão entre as crianças que devem ou não jogar futebol. Dessa forma, muitas pessoas chegam aos times de futebol LGBTQIAPN+ sem experiência com esse esporte. Pedro (Bharbixas)14 me falou sobre o cenário no qual essa demanda se coloca: “era um espaço que a gente queria ocupar, um espaço que nos era negado. A quantidade de homens gays interessados em jogar futebol surpreendeu todo mundo. A quantidade de homens que nunca tinham jogado, que foram jogar com a gente pela primeira vez”. Assim, percebe-se que a prática do esporte, em especial o futebol, também é um campo de negação e sofrimento na trajetória de gays afeminados.

Em meio a esse contexto, a palavra bicha está presente no nome do primeiro time de futebol LGBTQIAPN+ belo-horizontino, que se orgulhava de ser afeminado. Pedro (Bharbixas) explicou que o nome do time contém “bixas” porque “é um monte de bicha jogando bola”. Além disso, a figura escolhida para o brasão e o mascote do time foi o veado. Portanto, ambas as categorias de autorrepresentação, “bicha” e “viado”, fazem parte da identidade desse time. O Bharbixas venceu a 1ª edição do Champions LiGay, o campeonato nacional de times LGBTQIAPN+, o que foi um motivo de grande orgulho. Porém, Pedro (Bharbixas) me contou que o objetivo do Bharbixas ao participar dessa competição não era a vitória.

A nossa expectativa com a LiGay não era muito de ir pra ganhar o campeonato, sabe? A gente queria ir pra mostrar pros outros times que a gente também sabia jogar. Porque do Bharbixas pros outros times de futebol do Brasil existe uma certa discrepância no padrão das pessoas que jogam, sabe? Os outros times são muito... não sei se eu posso dizer “heteronormativo”, mas... sim. Eu posso dizer sim. São bem heteronormativos, sabe? É mais homem padrãozinho mesmo, aquele porte físico atleta, o pessoal mais forte. E o Bharbixas, desde o primeiro fim de semana, era aquela coisa afeminadíssima. E dentre os outros times, nós éramos conhecidos por sermos afeminados e por darmos muito close,15 e é o lacre, e coisa e tal. Então, assim, a nossa missão, a gente foi pra lá com a missão de mostrar: “olha, a gente é muito afeminado mesmo, mas a gente joga bola” (Pedro, Bharbixas).

A fala de Pedro (Bharbixas) aponta para diversas questões. A primeira é a caracterização dos times de futebol LGBTQIAPN+ brasileiros. Segundo ele, o Bharbixas fugia do padrão dos outros times por ter jogadores afeminados. Não apenas isso, além de afeminados, esses jogadores tinham orgulho da sua afeminação e sentiam o desejo de lutar contra os preconceitos que existem em torno dessa manifestação de gênero. Pedro (Bharbixas) caracterizava os jogadores dos outros times como “heteronormativos”, “padrõezinhos”, “homenzinhos” e “machinhos”. Mas ele não dizia isso num tom positivo ou mesmo neutro. O tom adotado era o de crítica ou, pelo menos, de ceticismo. Vê-se que o orgulho da afeminação pode vir ligado a uma deslegitimação do outro não afeminado. De todo modo, a missão de provar que afeminados podem fazer bem algo tradicionalmente relacionado à masculinidade, no caso, o futebol, foi tão bem realizada pelo Bharbixas que o time ganhou o campeonato. Esse desfecho funcionou como uma prova para o argumento dos seus membros. No entanto, Daniel (ex-Bharbixas) afirmou que o título de afeminado não surgiu do próprio Bharbixas, mas sim dos demais times que participaram da 1ª edição do Champions LiGay.

Essa alcunha de time afeminado surgiu no Rio de Janeiro, na competição, na 1ª Champions LiGay, porque as outras equipes tinham um padrão mais normativo. E ninguém acreditava, por exemplo, que o Bharbixas pudesse ser campeão da 1ª Champions LiGay. Porque, realmente, o Bharbixas era um clube onde as pessoas eram muito livres, muito abertas, muito diversas... elas não se importavam de se vestir como queriam, de andar como queriam, de se expressar da forma que elas pudessem. Enquanto você via um padrão mais normativo nos outros clubes. E, aí, aquela questão de você ressignificar algumas palavras. Por exemplo, se um time achava que o Bharbixas era um time afeminado, a gente usava a alcunha de afeminado pra mostrar que a gente tinha capacidade da mesma forma (Daniel, ex-Bharbixas).

Lúcio (Bharbixas) afirmou que a fama de afeminado do time surgiu antes mesmo do campeonato, devido às poses que os membros faziam nas fotos para as redes sociais. Ele contou sobre o menosprezo dos outros times e de como eles receberam esse rótulo com orgulho.

A gente meio que foi denominado... não vou dizer taxado, que taxado foi um tom pesado... a gente foi denominado como o time afeminado que ia participar [ênfase em “participar”]. A gente tava indo só participar. Então, daí, já começou um certo preconceito também, infelizmente do: “ah... o time afeminado tá vindo jogar, então eles tão vindo participar, eles não tão vindo pra competir”, quando, na verdade [voz de riso], o time afeminado foi o que ganhou. Então, a gente meio que abraçou essa denominação que a gente recebeu. E a gente falou assim: “com muito orgulho, com muito orgulho sim”. Então, a gente levantou essa bandeira e a gente ainda levanta, com certeza. De forma alguma, a gente recebeu isso como uma forma de demérito ou diminuir a gente. A gente abraçou e mostramos dentro e fora de quadra que a gente não é menos que ninguém (Lúcio, Bharbixas).

A afeminofobia sofrida pelos membros do Bharbixas pode ser facilmente constatada. Mas será que seria possível dizer que os membros dos times rivais também teriam sofrido um tipo de amasculofobia por parte dos membros do Bharbixas? Faria sentido pensarmos nessa possibilidade, ou estaríamos frente a uma falácia como o “racismo reverso” e a “heterofobia”? Ângelo (ManoTauros) afirmava que nunca havia sofrido preconceito em “times hétero”,16 tendo jogado neles por décadas como gay declarado. No que diz respeito à inclusão de gays na prática do futebol convencional, é possível perceber uma relação com a manifestação de gênero dos jogadores. Aparentemente, os gays mais amasculados conseguem ter uma entrada no futebol convencional, enquanto os mais afeminados não. Nesse sentido, parece ser mais importante no processo de exclusão de gays do futebol a afeminação do que a homo-orientação. Nesse contexto, Ângelo (ManoTauros) acreditava que só havia sido discriminado pela primeira vez no Bharbixas, time pelo qual ele havia passado antes de se tornar um dos fundadores do ManoTauros.

Lá tem uma bandeira da diversidade, mas que não é respeitada. A bandeira lá é: “olha, vamo defender a diversidade”, “qual diversidade?”, “essa aqui”, “que todo mundo tem que ser afeminado”, “que todo mundo tem que gostar de Anitta”... E se sair um pouquinho? “ah, não, mas, aí, é contra a diversidade”. Eu não sei que diversidade é essa que eles defendem que todo mundo tem que ser afeminado (Ângelo, ManoTauros).

Na perspectiva de Ângelo (ManoTauros), existem normas que policiam como os gays devem ser. Ele contou que não sabia quem era RuPaul17 quando estava no Bharbixas, e achavam que ele tinha de saber por ser gay. Segundo ele, uma vez, fizeram um “teste” para ver se ele era gay, perguntando sobre Kim Kardashian,18 que ele também não conhecia. É possível que esse tipo de “brincadeira”, dependendo do contexto, também possa ter um caráter de bullying ou até de tentativa de humilhação. Pedro (Bharbixas) também relatou uma situação que talvez pudéssemos ler como um tipo de “zoação”, ou até mesmo bullying, contra membros que se comportavam de forma amasculada.

Assim, entre nós do Bharbixas, a gente sempre faz piada com os outros times. Masculinizados, sabe? Na hora de tirar as fotos, na hora do close, às vezes tinha alguém mais tímido, aí a gente fala: [com voz afeminada] “ah, cê é BeesCats,19 por acaso, bicha? Ah, se solta, viado!” E agora a gente transferiu isso pro ManoTauros (Pedro, Bharbixas).

Obviamente, o que está sendo referido aqui como uma possível amasculofobia não reflete nenhuma dinâmica hierárquica de desfavorecimento de homens amasculados na sociedade e nem mesmo em grupos LGBTQIAPN+. Muito pelo contrário: mesmo entre homens gays, os amasculados têm inúmeros privilégios, como discutimos anteriormente. O processo que se observa aqui restringe-se a provocações intergrupais que refletem estratégias de “desvalorização do outro” para buscar se manter protegido dele num “espaço seguro”, no caso, o time LGBTQIAPN+. Afinal, esse time permite que gays afeminados encontrem a oportunidade de praticar o futebol que nunca haviam alcançado de outro modo. Isso se deve ao fato de que homens afeminados são vistos como corpos “fora do lugar” no universo do futebol. Como propõe McDowell (2000), nossos corpos também são lugares a partir dos quais nos posicionamos em diferentes espaços. Mas há normas que definem como devemos posicioná-los em cada local, e o futebol convencional exige corpos que se manifestem de forma amasculada. No entanto, dentro do Bharbixas, os corpos amasculados é que estariam fora do lugar. Assim, essa amasculofobia seria, na verdade, uma estratégia para se proteger contra padrões hegemônicos opressivos, que esses sujeitos podem ver refletidos também em gays que eles consideram cishetero-normativos.

De toda forma, percebe-se que há um “chumbo trocado” nessa disputa por uma suposta “normatividade gay”. Mais do que agressores e vítimas, os envolvidos se comportavam como rivais. Dessa maneira, independentemente de podermos pensar ou não em uma dinâmica interna de preconceito ou discriminação contra gays amasculados, fica evidente que havia uma disputa por um modelo hegemônico de masculinidade (Connell e Messerschmidt 2013). Se, na sociedade como um todo, o modelo viril é o hegemônico, no microcosmo do futebol LGBTQIAPN+ as relações de poder podem ser outras, e uma hierarquia de masculinidades diferente pode ser buscada a partir da disputa pela definição de um padrão que pode até mesmo ser o modelo marginalizado fora desse universo.

Conclusão

Meninos e homens afeminados têm que lidar com uma série de violências e preconceitos durante toda a sua trajetória de vida, desde o ambiente escolar até o mercado de relações afetivas e sexuais. Mas um dos espaços nos quais isso é bastante perceptível também é o futebol. Historicamente, ele é uma arena de reprodução da masculinidade tradicional. Nesse cenário, os meninos gays afeminados têm o acesso a esse esporte negado desde a infância. O futebol LGBTQIAPN+ é uma forma de resistência dentre desse processo, criando um espaço seguro para a prática do esporte para esses sujeitos.

No entanto, mesmo dentro desse movimento, um modelo de masculinidade padrão pode ser reproduzido, como uma forma de aproximação da normatividade. Com isso, comportamentos e discursos afeminofóbicos também podem ser encontrados no futebol LGBTQIAPN+. Segundo os membros do Bharbixas entrevistados, é exatamente isso o que vinha ocorrendo no contexto brasileiro. Por isso, nesse cenário, um time que se orgulhava de ser afeminado, como o Bharbixas, seria tratado de forma inferiorizada e desacreditado por parte das demais equipes. No entanto, a vitória do time no 1º Champions LiGay funcionou como um trunfo para provar que os demais times estavam equivocados. Nesse contexto, surge também uma relação de “chumbo trocado”, no qual os membros do Bharbixas demonstravam um certo tom de deboche e desprezo pela manifestação de gênero masculina hegemônica. Esse processo parece fazer parte de um movimento em que a desvalorização do outro é usada como estratégia para sua autovalorização.

O Bharbixas é um time que tem tanto a figura da bicha quanto a do viado na construção de sua identidade. A primeira através do nome, e a segunda através do brasão e do mascote do time. Assim, além de assumir o lugar de afeminado, esse time também sustenta e valoriza as denominações identitárias relacionadas a essa manifestação de gênero, também historicamente usadas como forma de inferiorização. Essas figuras remontam a uma associação entre as dimensões da sexualidade e do gênero, unindo características ligadas a esses dois eixos - a atração por pessoas do mesmo gênero e a manifestação de gênero em desconformidade com o padrão normativo para o gênero de designação - em torno de uma mesma identidade. A trajetória do Bharbixas mostra que gays afeminados não são apenas vítimas, mas também protagonistas de suas próprias histórias, enfrentando muitos desafios, mas também conseguindo ocupar cada vez mais espaços.

Referências

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1A pesquisa teve financiamento do CNPq por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro.

2Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais, Travestis, Queers, Intersexuais, Assexuais, Pansexuais, Não-bináries e outras minorias ligadas a identidade de gênero, manifestação de gênero, orientação sexual e anatomia sexual.

3Os entrevistados foram selecionados por meio de indicação. Foram realizadas seis entrevistas semiestruturadas (três pessoalmente e três por videochamada) e uma estruturada (por mensagens de texto). Os métodos foram escolhidos conforme a disponibilidade de cada entrevistado. O material foi submetido à análise do discurso.

4Foi realizada uma prática etnográfica multissituada, em que o sujeito pesquisador se apresentou como tal para os grupos acompanhados. A atividade concentrou-se na observação com interação limitada com os interlocutores.

5Foram utilizadas como estratégias etnográficas a observação do perfil que os times construíam de si nas mídias sociais e a busca por informações sobre os acontecimentos nos quais eles estiveram envolvidos no período. Para uma explicação detalhada sobre a etnografia de tela, ver Rial (1995).

6Carinhosa, meiga, sensível, etc. O autor nos lembra de que a palavra “afetado”, sinônimo de “afeminado”, vem de “afeto”.

7A gíria “lacrar”, no meio LGBTQIAPN+, originalmente, significa fazer algo muito bem, no mesmo sentido que “arrasar”. Mas, pejorativamente, ela também quer dizer fazer uma “cena”, um “espetáculo” por causa de uma questão social, de forma exagerada ou equivocada.

8São chamados de “passivos” os sujeitos que gostam apenas de serem penetrados durante o ato sexual. Os que gostam apenas de penetrar são chamados de “ativos”.

9Nesta pesquisa, utilizo o neologismo “amasculação” como complementar ao termo“afeminação”. Assim, amascular-se seria tornar-se mais másculo, mais masculino.

10Pansexuais são sujeitos que se sentem atraídos afetivo-sexualmente por outras pessoas independentemente de características relacionadas a gênero.

11Entendo por “manifestação de gênero” a forma como as características relacionadas a gênero de uma pessoa (como aparência e comportamento) se apresentam externamente, ou seja, a forma como elas são identificadas pelos outros sujeitos. A identidade é determinada internamente, mas a manifestação é aquilo ao qual temos acesso na interação, e a manifestação pode ou não estar em conformidade com o padrão normativo ligado ao gênero com o qual a pessoa se identifica.

12Alossexuais são sujeitos que sentem ou não atração afetivo-sexual por outras pessoas dependendo apenas da aparência delas. Alternativamente, há os demissexuais, por exemplo, que precisam desenvolver uma conexão afetiva com as outras pessoas primeiro.

13Endossexual é quem apresenta anatomia sexual em conformidade com um dos padrões binários, e intersexuais são as pessoas cuja anatomia sexual diverge desses padrões.

14Todos os nomes atribuídos aos jogadores entrevistados são fictícios.

15“Dar close” é uma gíria que significa fazer algo que chame a atenção das outras pessoas para si. Nesse contexto, chamando atenção para uma manifestação de gênero afeminada.

16Termo pelo qual os jogadores entrevistados se referiam aos times convencionais, ou seja, aqueles que são compostos majoritariamente — ou unicamente — por pessoas cis hétero.

17Drag queen estadunidense conhecida por comandar o reality show RuPaul’s Drag Race, uma competição de drag queens.

18Uma socialite estadunidense conhecida por estrelar o reality show Keeping up With the Kardashians, com o restante da sua família.

19Time LGBTQIAPN+ do Rio de Janeiro.

CÓMO CITAR ESTE ARTÍCULO:
Vieira, Vanrochris Helbert. 2025. “Afeminação, viadagem e futebol LGBTQIAPN+”,
Debate Feminista, año 35, vol. 69, pp. 105-130, e2458, https://doi.org/10.22201/cieg.2594066xe.2025.69.2458

Recebido: 30 de Janeiro de 2024; Aceito: 15 de Setembro de 2024

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