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Polibotánica

Print version ISSN 1405-2768

Polibotánica  n.27 México Apr. 2009

 

Usos múltiplos de plantas do Cerrado: um estudo etnobotânico na comunidade sitio Pindura, Rosário oeste, Mato Grosso, Brasil

 

Los usos múltiples de las plantas de Sabana: un estudio de la comunidad "Sitio Pindura", Rosário Oeste, Mato Grosso, Brasil

 

Déborah Luíza Moreira* , Germano Guarim–Neto

 

Depto. de Botânica e Ecologia. Instituto de Biociências. Universidade Federal de Mato Grosso. 78 060–900 – Cuiabá – MT. Correio eletrônico: demoreiranx@yahoo.com.br; guarim@ufmt.br

 

Recibido: 18 enero 2008
Aceptado: 7 enero 2009

 

Resumo

Em virtude do impacto causado pela agropecuária e pelo acelerado processo de industrialização, a flora do Cerrado vem sendo profundamente alterada, assim como a cultura popular das pessoas que vivem desse bioma, pelo avanço da cultura moderna. Neste contexto, sob o enfoque da etnobotânica, o presente trabalho tem o objetivo de ampliar o conhecimento sobre as espécies e famílias botânicas com potencial de uso no cerrado. A presente pesquisa foi realizada na Comunidade Sítio Pindura, no Município de Rosário Oeste, Mato Grosso, Brasil (lat. 14° 49' 41" S, e long. 56° 24' 51" W). Foi utilizada a técnica de "bola de neve" (snow ball), para a escolha dos 35 informantes. Para coleta dos dados foram usadas entrevistas semi–estruturadas, questionários, e percursos em trilhas no cerrado com moradores da Comunidade. No levantamento etnobotânico foram catalogadas 142 espécies, pertencentes a 123 gêneros e distribuídas em 60 famílias botânicas. As espécies vegetais foram inclusas em diversas categorias de uso, tais como: alimentar, construção civil, lenha, medicinal, mourões e cercas, entre outras. Foi constatado um grande conhecimento sobre a flora do cerrado, através da intensa utilização de plantas nativas pelos moradores locais. O saber local sobre os recursos vegetais do cerrado tem origem nas adaptações humanas e interações com o ecossistema, conhecimento adquirido através de observações e vivências com o meio ambiente, e que possibilita um saber ecológico que é materializado em suas práticas cotidianas.

Palavras–chave: Flora, Cerrado, Múltiplos usos, Etnobotânica.

 

Resumen

Debido al impacto causado por la agropecuaria y por el acelerado proceso de industrialización, la flora de las sabanas está siendo profundamente alterada, así como la cultura popular de este bioma por el avance de la cultura moderna. En este contexto el presente trabajo tiene el objetivo de ampliar el conocimiento sobre las especies y familias botánicas con potencial de uso en el cerrado dentro del contexto etnobotánico que presupone la relación establecida entre seres humanos y plantas. Este estudio fue realizado en la comunidad "Sítio Pindura", en el municipio de Rosário Oeste, Mato Grosso, Brasil (lat. 14° 49' 41" S, e long. 56° 24' 51" W). Para la colecta de datos fue utilizada la técnica snow ball, donde fueron entrevistados 35 informantes, en entrevistas semiestructuradas, cuestionarios y recorrido de trillas en la región con habitantes de la comunidad. Fueron catalogadas 142 especies, pertenecientes a 123 géneros y distribuidas en 60 famílias botánicas. Las especies vegetales fueron incluidas en diversas categorías de uso, tales como: medicinal, alimentaria, leña, construcción, vigas y cercas, entre otras. La comunidad reveló un gran conocimiento sobre la flora de la sabana, a través de la intensa utilización de plantas nativas en su cotidiano. Así, los datos reflejan que este saber local sobre los recursos vegetales de las sabana tiene origen en las adaptaciones humanas e interacciones con el ecosistema, conocimiento adquirido a través de observaciones y vivencias con el medio ambiente, posibilitando un saber ecológico que se materializa en sus prácticas cotidianas.

Palabras clave: flora, sabana, usos múltiples, etnobotánica.

 

INTRODUÇÃO

O bioma cerrado está localizado basicamente no planalto central do Brasil e é o segundo maior bioma do país em área, apenas superado pela floresta amazônica (Ribeiro & Walter, 1998). Segundo Mendonça et al. (1998) este bioma possui uma flora estimada em sete mil espécies.

Entretanto, o crescimento populacional e a demanda por mais alimentos, associados às condições edafo–climáticas favoráveis do cerrado, transformou essa região em importante área para atividades agropecuárias. O ritmo acelerado desta ação antrópica nas últimas décadas tem levado à perda de material genético vegetal nativo, praticamente desconhecido do ponto de vista científico (Viera & Martins, 2000).

Ainda há necessidade de estudos voltados para a identificação de plantas potencialmente úteis do cerrado, principalmente quando comparada à diversidade e à área ocupada. O desconhecimento de sua riqueza e possibilidades são graves lacunas, especialmente quando Ratter et al. (1997) estimam que cerca de 40% do bioma já tenha sido devastado e Kaplan et al. (1994) mostram que o cerrado possui somente 1.5% de sua extensão protegida por lei, sendo atualmente a vegetação em maior risco no Brasil. É preciso considerar que os recursos vegetais encontrados neste bioma, uma vez extintos, estarão indisponíveis às futuras gerações. Entre estes, por exemplo, podese considerar o recurso terapêutico oferecido pelas plantas medicinais (Guarim–Neto & Morais, 2003).

Guarim Neto (2001) ressalta que o cerrado no estado do Mato Grosso apresentase ainda repleto de possibilidades de aproveitamento dos seus recursos vegetais, e os primeiros detentores desse conhecimento botânico são as populações locais que utilizam desses recursos vegetais.

Em virtude do impacto causado pela agropecuária e pelo acelerado processo de industrialização, a flora do cerrado vem sendo reduzida, assim como a rica cultura popular, pelo próprio avanço da cultura moderna.

Neste contexto este trabalho tem o objetivo de ampliar o conhecimento sobre as espécies e famílias botânicas com potencial de uso no cerrado, tornando esta informação disponível a posteriores pesquisas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Área de estudo

O presente estudo foi realizado em uma zona rural conhecida por Sítio (comunidade) Pindura, distante cerca de 24 km da sede de Rosário Oeste, Mato Grosso, Brasil. O município de Rosário Oeste pertence à mesorregião Centro–Sul Mato–grossense, distante aproximadamente 124 km da Capital, Cuiabá, trafegando pela BR–163. Apresenta uma área de 8 530.37 km2 de superficie territtorial, localizandose geograficamente entre 14°50'10"S de latitude e 56°25'39"W de longitude, a 192 m de altitude.

O número de habitantes está em torno de 18.450 com densidade demografica de 2.17 hab/Km2, sendo que 43% da população estão concentrados em zona rural (IBGE, 2000). As principais atividades econômicas do município são baseadas na agropecuária, acentuandose o cultivo de arroz e milho, havendo, em menor escala, atividades não econômicas como a agricultura de subsistência (Ferreira, 2001).

A formação geológica do município caracterizase por coberturas dobradas do Proterozóico, Grupo Alto Paraguai e Cuiabá. Os solos predominantes são Podzólico vermelho amarelo (Tb Eutrófico abrúptico A moderado, textura média/argilosa, relevo suave ondulado) e Cambissolo (Tb Álico A moderado, textura média, relevo suave ondulado). O relevo é do planalto dos Guimarães, depressão rio Paraguai, província serrana, calha do rio Cuiabá (Ferreira, 2001).

A bacia hidrográfica relacionase as grandes bacias do Amazonas como a bacia do Prata Miranda & Amorim (2000). O município abriga as cabeceiras mais altas do importante rio Cuiabá. O clima é tropical quente e subúmido, com período de 5 meses de seca, a temperatura média anual é em torno dos 24° C e a precipitação anual em torno de 2000 mm. Pela classificação climática de Köppen podese caracterizar o clima local em Tropical de Savana (Aw).

Entre as fisionomias componentes do cerrado do município de Rosário Oeste estão o cerrado (stricto sensu), o cerrado de encosta, o cerradão, o campo–limpo, o campo–sujo, a mata ciliar (de cursos d'água no cerrado, temporários; das margens do rio Cuiabá, com feição florestal), a vereda/buritizal, o campo úmido, o campo de murundus (Guarim Neto et al., 2007).

Métodos de coleta de dados

Foram utilizadas técnicas etnográficas correntes, sendo priorizado uma abordagem qualitativa na coleta de dados. Usando questionários estruturados, entrevistas semi–estruturadas e percursos em trilhas no cerrado, realizada com os moradores, diário de campo e gravação.

As categorias de uso amostradas na Tabela 1 e a aplicabilidade terapêutica das espécies medicinais tratada na Tabela 2 seguiram a classificação êmica.

No protocolo de campo, inicialmente foi feita uma visita para o reconhecimento da área de estudo, com o intuito de contatar moradores da comunidade para o desenvolvimento do estudo.

Foram entrevistados 35 informantes, incluídos na amostra através da técnica de bola de neve (snow ball) (Thiollent, 1994, Becker, 1993). Foram priorizados atores sociais como raizeiros, benzedeiras, antigas parteiras, pessoas idosas e antigos moradores, com base nos pressupostos etnobotânicos de Martin (1995) e Alexiades (1996), que estabelecem critérios e formas dessa obtenção.

As visitas aos domicílios ocorreram nos períodos matutino e vespertino, e as entrevistas foram feitas de forma individual, na residência dos informantes.

Ao utilizar os recursos vegetais o ser humano estabelece uma relação com o ambiente, elaborando um conceito próprio de seus elementos, definindo as relações etnoecológicas locais entre ele e o ecossistema, através da valoração que dá as plantas. A relativa importância de cada uso para as plantas que conhece e que maneja são expressas por informações que apontam o grau de consenso entre os informantes para determinada espécie vegetal, ou seja, o valor de uso, refletindo as preferências das espécies mencionadas para os diversos usos particulares. Informações consensuais de valor de uso refletem a importância de cada uso ou espécie por informante, visto que, em um maior número de situações, é razoável assumir que o aumento de evidencia sobre um dado uso ou planta refletirá, provavelmente, na menção destes (Phillips, 1996).

"Valor de uso de cada espécie" (VUsp) representa a importância cultural das espécies.

Para calcular o "valor de uso" empregouse:

a. O "valor de uso de cada espécie" (sp) por cada informante (i), dado como:

Onde, Uspi é o número de usos mencionados por informante i por espécie sp em cada evento, e nspi é o número de eventos com o informante i por espécie sp.

b. O "valor de uso global de cada espécie" (VUsp), dado como:

Onde, ns é o numero de informantes entrevistado por cada espécie.

O valor de uso global das espécies foi calculado somente para planta citada por mais de um ator social.

O material botânico não identificado em campo foi identificado por meio de consulta a especialista, por meio de bibliografias especializadas e através da comparação com excicatas do Herbário da Universidade Federal de Mato Grosso. A grafia dos taxa e dos autores foi conferida por meio da consulta à base de dados do Missouri Botanical Garden.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No levantamento etnobotânico foram catalogadas 142 espécies do cerrado, pertencentes a 123 gêneros e distribuídas em 60 famílias. A família botânica com maior número de espécies foi Fabaceae (19 espécies), seguida de Bignoniaceae (7 espécies) e Apocynaceae e Vochysiaceae com seis espécies cada (tabela 1).

As espécies vegetais catalogadas foram inclusas em diversas categorias de uso, tais como: medicinal, alimentar, lenha, construção, mourões/cercas, moveis e utensílio (Fig. 1). As categorias nas quais as plantas foram agrupadas correspondem às categorias éticas, nomeadas pelos pesquisadores.

A categoria de uso mais representativa foi a medicinal (122 espécies), como Camarea ericoides A. St.–Hil.(arnica), Palicourea xanthophylla M. Arg. (douradinha), Simaba ferruginea A. St.–Hil. (calunga), seguindose as espécies com uso alimentar (21 espécies), como Hancornia speciosa B.A. Gomes (mangaba), Eugenia dysenterica DC. (orvalho), Ecclinusa ramiflora Mart, (fruta–banana) e para lenha (21 espécies), como Anadenanthera falcata (Benth.) Speg. (angico), Byrsonima coccolobifolia Kunth (semaneira), Dipteryx alata Vogel (cumbaru). Sendo que 45 espécies pertencem a mais de uma categoria de uso.

As espécies usadas com finalidades medicinais muitas vezes pertencem também a outras categorias. Entre estas podemos citar Dipteryx alata Vogel (cumbaru), Anadenanthera falcata (Benth.) Speg. (angico), Hancornia speciosa B.A. Gomes (mangaba), mostrando assim uma multiplicidade de usos e maximização do recurso. A categoria medicinal é representativa em trabalhos realizados no estado de Mato Grosso, como apontam van den Berg (1980), Guarim Neto (1984; 1987; 1996), Duarte (2001), Morais (2003) e Xavier (2005).

Guarim Neto (1985) ressalta o potencial da flora do cerrado do Estado de Mato Grosso, considerando o uso das espécies vegetais com diferentes finalidades, tais como, utilização da madeira, o valor medicinal e as com frutos comestíveis.

A Comunidade utiliza as espécies do cerrado com diversas finalidades, fazendo desde a extração de remédios como quina (Strychnospseudoquina A. St.–Hil.), arnica (Camarea ericoides A. St.–Hil.), mangava–brava (Lafoensiapacari A. St.–Hil.), a coleta de frutos tais como o orvalho (Eugenia dysenterica DC.), a mangaba (Hancornia speciosa B.A. Gomes) o piqui (Caryocar brasiliense Cambess.), o uso de lenha, como a semaneira (Byrsonima coccolobifolia Kunth, Byrsonima verbascifolia (L.) Rich, ex Juss.), o angico (Anadenanthera falcata (Benth.) Speg.), e a fabricação de utensílios domésticos como peneiras e vassouras, utilizando o buriti (Mauritia flexuosa L.) e a bocaiúva (Acrocomia aculeata (Jacq.) Lodd. ex Mart.) como matérias primas.

Vale salientar a importância das espécies arbustivas e arbóreas como fonte de combustão (lenha), para preparar os alimentos. A busca da lenha no cerrado em geral é uma atividade feminina. As mulheres coletam ramos caídos no solo, confeccionando feixes desse material, que são amarrados e carregados até a moradia sob os braços ou na cabeça, esta protegida por pequena rodilha de tecido, para não machucar.

Atualmente, um dos grandes problemas das comunidades tradicionais do Centro–Oeste do Brasil, é a ausência de segurança alimentar, reforçada pela falta de mecanismos que promovam a geração de renda. Neste contexto o cerrado apresenta uma grande riqueza de espécies negligenciadas que podem ser consideradas "plantas do futuro" (Agostini–Costa et al., 2006).

Dentre as espécies nativas citadas para uso alimentar destacamse o piqui (Caryocar brasiliense Cambess), a mangaba (Hancornia speciosa B.A. Gomes), o buriti (Mauritia flexuosa L.), o orvalho (Eugenia dysenterica Dc.), a fruta–banana (Ecclinusa ramiflora Mart.) muito apreciados pelos moradores, sendo obtidos através do extrativismo. As frutas do cerrado complementam a dieta alimentar do sitiante. Siqueira (1981); Guarim Neto (1985); Almeida & Silva (1994); Almeida et al. (1998); Proença et al. (2000) validam o potencial econômico das espécies frutíferas do cerrado para a vida e economia das populações humanas que habitam essas áreas.

Como planta tóxica foi apontada apenas a planta denominada popularmente de péde–perdiz (Simarouba versicolor A. St.–Hil.) que de acordo com os entrevistados não tem nenhuma utilidade. . "...Péde–perdiz não presta pra nada, esse é veneno, não presta pra remédio nem pra madeira, a lenha dele se a fumaça for no olho cega..." (mulher, 76 anos).

Os recursos vegetais do cerrado têm um papel importante na vida dos membros da comunidade pela diversidade de usos, manifestada na quantidade de espécies potencialmente econômicas que inclui as alimentícias, artesanal, medicinais, forrageiras, madeireiras, oleíferas, entre outros.

A riqueza de espécies do cerrado tanto da flora quanto da fauna é muito expressiva, representando cerca de 30% da biodiversidade brasileira (Eiten 1972; Ribeiro & Walter, 1998). O cerrado brasileiro está entre os biomas de maior diversidade florística do planeta com 6.249 espécies de plantas vasculares registradas até o momento (Mendonça et al., 1998). Entretanto, em função da facilidade de desmatamento, boas condições de topografia e tipo de terreno, o cerrado representa a principal região brasileira, produtora de grãos e gado de corte. Com a ocupação das terras do cerrado para a produção agrícola mecanizada, as áreas nativas vêm sendo removidas em uma escala muito acelerada (Aguiar & Camargo, 2004). Myers et al. (2000) apontam que nada menos do que 80% da área original do cerrado já devem ter sido convertidas para áreas antrópicas, restando apenas 20% de áreas consideradas originais ou pouco perturbadas. Tal situação também pode ser percebida nos remanescentes de cerrado do município e Rosário Oeste, onde a necessidade de implantação de unidades de conservação de uso sustentável é extremamente necessária e urgente.

As plantas medicinais – Os entrevistados demonstraram um vasto conhecimento sobre plantas do cerrado com potencial medicinal, manifestado através das diferentes experiências práticas do cotidiano. A vegetação é percebida como fonte vital para a Comunidade, sendo um importante componente da paisagem do Sítio Pindura. Podese observar que o uso de plantas como medicamentos é antigo, constituindo parte integrante da cultura local, que é mantida e perpetuada entre seus membros.

Nesta categoria de uso, foram catalogadas 122 espécies, distribuídas em 109 gêneros e 59 famílias botânicas (Tab. 2).

Entre as plantas medicinais, a família botânica com maior número de espécies citadas foi Fabaceae (17), seguida de Bignoniaceae (7), Rubiaceae (6) e Vochysiaceae(6).

Percebese que este saber sobre as utilidades da flora é dinâmico, sendo fortemente transmitido através da oralidade, residindo aí também um dos motivos da importância do registro escrito deste conhecimento, necessário para a manutenção de um saber local consolidado no cotidiano das vivências e experiências humanas. Os entrevistados demonstraram grande respeito aos poderes curativos das plantas, como abaixo transcrito:

"... todas as plantas deve ter alguma serventia, deve servir como remédio pra curar alguma doença, agente que não sabe, se tá aqui é porque é boa e servem pra alguma coisa..." (mulher, 76 anos).

Entre os entrevistados, cada espécie possui uma forma de uso, que envolve desde a parte coletada até a forma e período do dia e estação a ser colhida:

"... para tirar a água da embaúba tem que fazer pra tirar a água da embaúba tem que fazer um furo de tardinha na casca, e colocar uma vasilha pra aparar a água, e só tirar cedinho, tem de ser no inicio da seca que é quando tem mais água..." (mulher, 69 anos).

As principais partes das plantas citadas para o preparo de remédios caseiros foram a casca, a folha e a raiz (Fig.3).

Sobre este aspecto, Pasa et al. (2005) também apontaram a casca, a raiz e a folha como as partes mais usadas pela Comunidade de Conceição–Açu, em Cuiabá, Mato Grosso.

Morais (2003) salienta que o uso de folhas no preparo dos chás é expressivo, destacandose das demais partes das plantas usadas na Comunidade do Sítio Angical, comunidade também do município de Rosário Oeste.

É sabido que as plantas possuem diferentes concentrações de compostos químicos em suas partes. Ao longo do tempo foi desenvolvido um conhecimento que permitiu ao ser humano conhecer quais partes são mais úteis para uma dada finalidade. Podese concluir que a utilização das folhas como remédio pode ser vista como uma estratégia de manejo, coletando um órgão que não comprometerá o desenvolvimento da planta. Em contrapartida, houve destaque para a utilização de cascas e raízes, partes que se coletadas sem cuidados podem colaborar para o comprometimento das espécies:

"...A arniquinha, só usa a raiz, aí agente põe no álcool, na garrafada ou faz o chá, mas hoje tá mais difícil de encontrar, têm uns lugares que eu sei que tem, mas o povo que mora praquelas banda tira muito..." (mulher, 76 anos).

Foram mencionadas pela população local, várias formas de utilização das plantas, sendo que a mais expressiva foi o chá, com 43%, no entanto outras formas também foram citadas (Fig. 4).

Através da bibliografia analisada para esta pesquisa, podemos apontar que ainda há grande carência de estudos voltados para a identificação de espécies com potencial medicinal no cerrado. Portanto, fazse necessária a realização de pesquisas como esta, para que possibilitem subsidiar posteriores estudos, como por exemplo, das qualidades terapêuticas destas plantas, antes que o conhecimento e as espécies desapareçam.

Etnoclassificação: como a comunidade percebe o ambiente circundante – o conhecimento sobre a biodiversidade do cerrado estabelecese pela transmissão cultural processada pela relação cotidiana da Comunidade, e a forma como percebe os recursos vegetais a sua volta é manifestado através de suas experiências práticas.

A identificação dos vegetais geralmente se dá pela percepção visual, tátil e olfativa treinada através da observação da flora. A tabela 3 resume como são classificados e sistematizados aspectos relacionados às plantas, em relação a uma classificação eticista (pela Ciência) e emicista (pela Comunidade).

Os moradores da Comunidade Sítio Pindura identificam as espécies vegetais através de seus nomes populares, usando principalmente as partes foliares, os caules e frutos para esse reconhecimento. O que expressa o valor da planta para a população é a sua utilidade, assim as espécies com maior número de usos são mais valorosas.

Analisando e utilizando os dados referentes a fisionomia da vegetação local, e partindo da percepção e classificação oral da comunidade estudada, podemos indicar, com relação às unidades de paisagem do cerrado, seis tipos de fisionomias: "Cerrado de pedra", "Cerrado de areia", "Mata", "Várzea", "Chapada" e "Campo" (tabela 4).

No estudo sobre caracterização das unidades de paisagens do cerrado foi observado que os membros da comunidade usam a palavra "mato" para designar a vegetação. Então, quando se pergunta: "quais os tipos de mato que tem por aqui?", eles indicam: "cerrado", "mata", "várzea", "chapadão" e "campo" para distinguir os tipos de vegetação, classificando o cerrado em dois tipos: "Cerrado de pedra" e "Cerrado de areia".

A relação com o meio ambiente está alicerçada na subsistência e no uso de diferentes tipos de unidades de paisagem e sua integração com a natureza proporciona várias práticas e atividades, de forma a maximizar o uso desses ambientes, como a extração e coleta dos recursos vegetais, pesca, caça, agricultura e pecuária de pequena escala.

 

CONCLUSÃO

A Comunidade do Sítio Pindura demonstrou um profundo conhecimento do cerrado, experimentado através da convivência, observando–o de perto e explorando suas potencialidades no cotidiano. Desta maneira a vegetação que os cerca desempenha um papel importante na sobrevivência desta Comunidade.

A Comunidade do Sítio Pindura possui um histórico cultural de interações com o ambiente cerrado, sustentada por um saber ecológico local, pois manejam e conservam os fragmentos de cerrado que servem como fonte direta de recursos naturais para Comunidade, de onde se obtém remédios, frutos comestíveis, lenhas e madeiras que são úteis e exploram ainda a possibilidade de criação de gado doméstico.

Este saber sobre os recursos vegetais do cerrado é fruto de suas adaptações e interações com o ecossistema, conhecimento adquirido por meio de observações e experimentação, que gera um saber ecológico que é materializado em suas práticas cotidianas.

A Comunidade desenvolveu ao longo do tempo uma multiutilização do ambiente e mais precisamente do cerrado, manipulando a paisagem natural, mas mantendo a hetero–geneidade de habitat e maximizando o uso da variabilidade biológica.

O multiuso que fazem do cerrado proporciona adaptações às condições ambientais e às variações sazonais, requerendo um manejo adaptativo ecológico de forma que desenvolveram um profundo conhecimento dos recursos e de seus ciclos ecológicos de renovação.

Assim, podemos caracterizar essa Comunidade como tradicional, com base nas condições de tempo de vivência, adaptabilidade à região e à manutenção de saberes e fazeres peculiares, demonstrando que o ambiente e mais precisamente a utilização das plantas convergem para a sustentabilidade das atividades tradicionais desenvolvidas pelos seus membros, homens e mulheres, seres humanos perfeitamente ajustados às paisagens regionais.

 

AGRADECIMENTOS

A primeira autora agradece a CAPES pela Bolsa concedida. Agradecemos ainda ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico–CNPq, pelo apoio financeiro ao Projeto e à comunidade pela colaboração na pesquisa. Ainda, à Profa. Dra. Carmen E. Rodriguez Ortiz pelo resumen.

 

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Notas

* Bolsista CAPES.