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Investigaciones geográficas

versão impressa ISSN 0188-4611

Invest. Geog  no.77 México Abr. 2012

 

Notas y noticias

 

Colóquio Internacional "Élisée Reclus e a geografia do Novo Mundo" [Coloquio Internacional "Elisée Reclus y la geografía del Nuevo Mundo"], São Paulo, 6 al 10 de diciembre de 2011

 

Breno Viotto Pedrosa

 

Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo

 

Entre os dias 6 e 10 de dezembro de 2011 realizouse na Universidade de São Paulo o Colóquio Internacional sobre élisée Reclus e a geografia do Novo Mundo. Esse Colóquio foi organizado por estudantes da pós–graduação em geografia humana e alguns professores da Universidade de São Paulo e foi presidido pelo Professor Hervé Thiery. Em um primeiro momento contou com o financiamento do Consulado Geral da França em São Paulo e posteriormente com o da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior). O encontro foi primeiramente pensado a partir de quatro eixos de discussão: 1. élisée Reclus e a tradição geográfica, 2. élisée Reclus e as Geografias dos Novos Mundos, 3. Geografia política e geopolítica e 4. élisée Reclus: educação e ensino na geografia. O encontro teve um total de 43 palestrantes (31 homens ou 72.1% e 12 mulheres ou 27.9%). Os dias de trabalho foram intensos geralmente começando de manhã e se estendendo até de noite. O site do evento pode ser acessado através do endereço: http://reclusmundusnovus.wordpress.com/.

Esse Colóquio de certa maneira demonstra um alto grau de especialização, ou seja, temos uma série de doutores, mestres e alunos de pós–graduação que decidiram estudar a fundo o pensamento de um só geógrafo que imbuído do ideal anarquista produziu uma grande obra teórica e prática acerca da geografia do mundo. No entanto, devido à presença mesmo que sutil da desvalorização do campo da história do pensamento geográfico –nos parece que isso ocorre de alguma forma no Brasil– ou ainda a pouca força da história da nossa disciplina muitos autores dedicaram um tempo significativo de sua apresentação na contextualização e na apresentação dos aspectos básicos da obra de élisée Reclus. O resultado dessa escolha foi a sobreposição e repetição de informaçõ es em alguns casos. Obviamente isso não comprometeu o evento nem empobreceu o debate. De qualquer forma construímos nossa resenha de forma a tentar apresentar a síntese das informaçõ es e compilar tais sobreposiçõ es.

Na abertura do evento contamos com a palestra da professora Béatrice Giblin uma pesquisadora que há muito tempo se dedica à obra de Reclus. Ela foi aluna de Yves Lacoste e seu trabalho sobre Reclus esteve ligado à revista Hérodote. E como expusemos anteriormente em sua apresentação será possível detectar várias informaçõ es que se repetiram posteriormente durante o evento. Primeiramente ela nos apresenta a idéia de que a liberdade conduz a obra de élisée Reclus bem como seu pensamento político. Também que o Estado é uma máquina que deve ser desmantelada, é uma organização imposta pelos outros. Somente os indivíduos podem dirigir suas vidas e lutar contra a opressão. A moral, portanto é basicamente individual e até certa medida voluntarista. Dessa forma sua geografia serve o projeto político de lutar contra a opressão e de possibilitar a anarquia com homens livres e iguais em uma sociedade sem leis e sem autoridades.

Reclus antes de se envolver umbilicalmente com o anarquismo escolhe ser geógrafo. Devido a sua infância em um ambiente familiar envolto pelo protestantismo Reclus desenvolveu sua sensibilidade pela observação e pelo respeito à natureza. Ele, no entanto, tem uma formação de gabinete através das lições de Ritter e da leitura de Humboldt. Acabada sua formação Reclus parte para o mundo e trabalha como geógrafo de campo, mas nunca sem ignorar ou subestimar o material de gabinete. Alguns pesquisadores como David Palacios colocam que Reclus não seria essencialmente um explorador no sentido tradicional do termo. Ele seria um geógrafo pois buscava colher muitasinformaçõ es em arquivos através de seus contatos dentro do meio anarquista e elaborar verdadeiras sínteses regionais através do trabalho minucioso e comparativo acerca das fontes dos mais diversos locais do mundo. A rede de anarquistas seus componentes e sua funcionalidade foi tema de debate e esteve presente na apresentação de Petellier. Ele chama atenção do contato de Reclus com o anarquista Kotoku Shusui que lhe indicará o problema do imperialismo.

Giblin contrariamente a essa idéia reafirma a necessidade de Reclus de ver pessoalmente, de ir ao local e de não se satisfazer apenas com a leitura. Em mais de uma mesa do Colóquio também foi destacado o fato de que as fontes que ele consultou e reuniu eram muito ricas e cobriam um longo período de tempo, de forma que do ponto de vista documental sua Géographie Universelle era mais rica do que a geografia mundial elaborada por alguns geógrafos vinculados a escola de Vidal de la Blache. Há então uma idéia que possui força de argumentação de que a geografia francesa sofreria um processo de empobrecimento diante de sua institucionalização acadêmica.

Outro tema bastante debatido em todas as mesas é que imbuído do espírito da época Reclus era um grande incentivador do processo de colonização, pois em sua opinião o trabalho humano teria o papel de melhorar a natureza e não destruí–la. Através da colonização o tema da miscigenação de raças e a apropriação política da escravidão e do extermínio de raças ganham o tom político do debate. Encontrar o equilíbrio ao qual Reclus se refere é o melhoramento da natureza como um bem comum para toda a humanidade constituída com base na cooperação e na solidariedade entre os homens. No entanto, como apontaram vários palestrantes para Reclus a ascensão do capitalismo e suas inovações técnicas representam um progresso e ao mesmo tempo um regresso. E toda sua argumentação nesse sentido é plena de exemplos empíricos. E no que diz respeito à colonização da Argélia o colono francês teria um papel positivo uma vez que transformaria a terra não produtiva em frutos. Assim apesar dessas contradições Reclus é um entusiasta do avanço tecnológico, pois as novas tecnologias provocariam a resolução das contradições e trariam conseqüentemente o equilíbrio entre sociedade e natureza. Phillipe Pelletier, no entanto, nos lembra de que Reclus utiliza o termo contradição e não o termo dialético. Isso porque a dialética era um termo avesso a população não culta e porque de certa forma remetia aos debates entre anarquistas e socialistas na primeira internacional –como entre Marx e Engels.

Reclus se localiza em um momento histórico que a ecologia ainda não foi inventada, entretanto ele é um ecologista avant lettre tanto no sentido de visualizar a relação entre homem e natureza através de laços profundos e essenciais, quanto ao perceber que é necessário conservar a natureza e encontrar um equilíbrio de seu uso. Através dessa análise relacional profunda Giblin vislumbra em sua obra aquilo que chama de geopolítica cidadã que dá conta de compreender as relações de poder em uma microescala, como por exemplo, no estudo de Reclus sobre a cidade de Nova York na Géographie Universelle. Marcella S. di Friedberg nessa mesma verve fez uma comparação das visões acerca da ecologia e das interpretações que decorrem do discurso sobre a natureza advindo de Reclus. Como destaca citando P. Pelletier a causa verde é sempre positiva e remete ao politicamente correto. Friedberg comparou as visões de natureza que temos atualmente e a visão de Reclus. De uma forma geral nos coloca que atualmente temos os eco–otimistas e os catastrofistas, porém Reclus não se encaixaria nessas classificações atuais. Ele teria uma interpretação mais rica e atenta ao dinamismo terrestre em que a técnica é a chave para o aumento dos recursos disponíveis. E onde o recurso final é o próprio ser humano e onde se evidência claramente sua fé no anarquismo e na vontade humana. A ciência para Reclus, de acordo com Marcella, se remete a um campo de disputa ideológica e de visões de mundo. Assim não é só a produção do conhecimento é pensada mas também sua reprodução na forma da educação onde uma educação libertária se faz necessária com contato físico e direto da realidade.

Apesar de Reclus só adentrar na academia tardiamente alguns geógrafos consideram sua geografia enciclopédica, porém não acadêmica. Reclus falava ou era capaz de ler em seis línguas diferentes, possuía grande cultura, recebia informações de uma grande rede de anarquistas e colaboradores e havia feito várias viagens. Diante desse fato David Palacios afirma que Reclus era em si um centro de cálculo tendo em vista o volume de informações que reúne e a extensão de sua obra. E se por um lado foi um pensador que até certa medida adiantou o enfoque ecológico, por outro lado ele foi contemporâneo do darwinismo e acompanhou o ápice de sua divulgação. E diante das apropriações do darwinismo pelo pensamento social Reclus tem uma postura decididamente anarquista que reverbera e se alimenta na obra de Kropotkin. A escolha é que o convívio e a sociedade humana devem se pautar na cooperação e não na competição da espécie. Fato que não impede Reclus de identificar a luta de classes. Porém, os dominados são solidários e os dominantes são invejosos e competitivos. Nesse sentido o novo mundo é visto com esperanças do surgimento de novos tipos de sociedade.

A visão utopista acerca do novo mundo foi explicitada em várias palestras e especialmente no apresentado por David Palacios que buscou explorar a relação entre Reclus e um colaborador colombiano que não ligado às redes anarquistas. Seu nome era Vergara y Velasco um membro do exército da Nova Granada que era politicamente conservador o que contrastava com os ideais de Reclus. Mesmo assim ambos desenvolveram uma relação duradoura de troca e respeito intelectual. Vergara y Velasco chegou até mesmo a traduzir a parte da Géographie Universelle sobre a Nova Granada no momento em que esta era publicada na França. Reclus publica ainda quando volta à França "Viajem a Serra Nevada de Santa Marta" e em seus estudos apresenta uma regionalização da Colômbia. No que diz respeito ao Panamá é interessante destacar que Reclus é um entusiasta da construção do canal, pois acredita que o comércio é um veículo civilizador. Ao se deparar com a ascensão do capitalismo Reclus raciocina que o comércio é uma espécie de motor da história e da geografia. Por fim cabe ressaltar que Vergara y Velasco foi contatado posteriormente pelos geógrafos vidalianos quando eles estavam reeditando a Géographie Universelle, porém em uma relação assimétrica onde os cientistas do centro mais se alimentavam do conhecimento periférico consolidado. Enfim o fato era que a relação entre Reclus e Vergara era mais cordial e de trocas científicas. Alejandro C. Ortíz destacou que Reclus observa a simbiose do homem com o território e os diferentes costumes e culturas. Ressalta ainda a importância do café e ironicamente coloca que apesar do regime republicano na Nova Granada o presidente tem poder de imperador e a igreja recebeu metade das terras do país.

Marcelo Miyahiro nos conta sobre a viajem de Reclus ao Brasil onde ele vai basicamente do Rio de Janeiro à São Paulo. No Rio fala sobre os aspectos urbanos e os processos de migração campocidade. Em São Paulo visita as fazendas de café e observa novamente o sistema escravocrata. Reclus passa pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro onde tem a recepção e o apoio do Marquês de Paranaguá. é eleito sócio honorário da Academia brasileira de Letras e sócio temporário da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Em 1894 Reclus escreve o livro "Estados Unidos do Brasil" que mais ou menos 6 ou 7 anos depois é traduzido e se inclui como anexo o texto "Território contestado franco–brasileiro". Essas obras foram utilizadas pela diplomacia brasileira para ganhar a disputa de fronteira acerca da Guiana Francesa. Estratégia que deu certo uma vez que a fronteira é traçada a partir do Cabo Orange e não do Rio Amazonas como queriam os franceses. Hervé Thiery nos apresenta um trabalho sobre como Reclus vê a guerra do Paraguai. Curiosamente Reclus detecta como a guerra colocará em xeque a sociedade latifundiária e escravocrata no Brasil desgastando o regime imperial. Poucos anos após essa guerra a República e a abolição da escravidão são proclamadas. Francisco Albert também se dedica a expor como Reclus viu a estruturação da sociedade brasileira percebendo a escravidão no Brasil de maneira diferente dos Estados Unidos. Aqui haveria traços de um feudalismo ou ainda um sistema de favores e acordos entre senhores e escravos distinto da segregação dos Estados Unidos de América.

Outro trabalho que nos pareceu muito interessante foi de Rui Campos em que ele analisa a obra de Reclus "Histoire d'um ruisseau" [História de um córrego] em que se analisa em cada um dos capítulos como o córrego nasce e percorre o território até chegar ao mar. Reclus se refere ao ciclo da água e ainda demonstra como os rios são apropriados pelo homem e como eles tem um valor essencial para a sociedade. Nos fala ainda sobre a utilização do rio como fronteira política. Ainda nessa obra ele remete as grutas como o primeiro habitat humano, chama atenção para o mau uso da água e até mesmo se refere poeticamente ao uso do rio como espaço de entretenimento e contemplação na natureza. E no meio da análise sustenta que o mundo não seria uma justaposição de elementos por camadas, mas um todo sustentado por constantes relações.

Outra idéia que apareceu de forma diluída em várias mesas é o fato do ideal anarquista de Reclus fazer com que ele tenha uma postura contra a igreja uma vez que ela seria apoiadora da dominação de classes, a favor da igualdade de gêneros, contra as ideias malthusianas e contra o racismo —e conseqüentemente entusiasta da mestiçagem. Reclus também embebido do ideal anarquista aponta para a dissolução dos governos e das fronteiras e alguns até mesmo o indicaram como um predecessor da ideia de mundialização. A contradição diante disso é que nos parece que Reclus não despreza completamente a ideia de nação. Também no âmbito do anarquismo temos suas reflexões sobre a relação entre evolução, revolução e a não alienação da autonomia do sujeito na construção de uma sociedade justa. Nesse contexto é que Reclus cunha o termo geografia social calcado na decisão soberana no individuo e na luta de classes rumo ao equilíbrio social. Diante de todo exposto como nos coloca Pablo Campos a geografia de élisée Reclus já se demonstra como multiescala e não pautada centralmente no Estado. Reclus dá muita importância à propriedade comunal que se manifesta na maioria das culturas ao redor do mundo.

Phillippe Pelletier por sua vez explorou mais como o anarquismo fundamenta a visão de mundo de Reclus e como a participação de uma rede de anarquistas foi importante para sua obra e para aprofundar suas reflexões sobre o próprio anarquismo. Aqui se esclarece a questão nacional: Reclus investe muito na visão de federações regionais de trabalhadores que se vêem como parte do mundo e não de uma nação. O que na prática não descarta a ideia de divisões nacionais, porém sempre remete ao federalismo. Pelletier demonstra ainda que em um cenário cheio de deterministas como o próprio Bakhunin Reclus optou pela adaptação, pela diversidade e complexidade do meio, ou seja, pelas múltiplas determinações. Nos coloca ainda que a ideia de que o progresso acompanha o regresso vem de Vico o que certamente será um mote essencial do desenvolvimento de sua obra. E Pelletier tem muito cuidado para situar Reclus em seu tempo e não taxa–lo simplesmente de ecologista isso porque não se trata exclusivamente da relação do organismo com o meio ambiente, mas de relações múltiplas que envolvem vários elementos.

O desfecho do colóquio se deu com a palestra de Roland Creaght que fez suas consideraçõ es sobre Reclus. E coloca que ele possui muitos traços anti–eurocentricos uma fez que via no novo mundo como uma possibilidade de reorganização social e o velho mundo como decadente. Creaght também contrasta a visão de Marx e Reclus sobre a questão do eurocentrismo, mas também sobre a guerra civil nos EUA onde Reclus se preocupava mais com a emancipação dos povos. Finalmente a riqueza do conhecimento está em saber viver e trabalhar na terra numa concepção que seria próxima a idéia da práxis marxista no sentido que o conhecimento deve ser realizado na vida e na política.

Ao fim do evento pudemos concluir que mesmo com as sobreposições e lugares comuns acerca da obra de Reclus tivemos um mosaico de matizes sobre vários aspectos de seu pensamento o que se evidenciou através do debate. Apesar de tudo Reclus não é celebrado para que fique no passado. Ele é revisitado que para possa agregar realmente idéias importantes e elaborações metodológicas que nos ajudem a entender o mundo atual mesmo que ele seja um autor do século XIX. Como nos demonstrou Marcella atualmente uma espécie de neurose generalizada nos impede de encarar a natureza como algo dinâmico uma vez que a ideologia da conservação ambiental faz o senso comum vêla como algo estático e que obviamente precisa ser preservada de maneira intocável. Pessoalmente um aspecto que me incomoda do pensamento reclusiano é a presença de várias metáforas naturalizantes ou ainda uma tendência de naturalizar o que tem uma essencial cultural. Obviamente essas metáforas são um instrumento importante de teorização e de expressão de determinados processos e que irão estar entre os vidalianos. Mas o grande contraste do pensamento reclusiano se comparado à escola vidaliana recai com certeza sobre a apreensão do dinamismo do mundo. Como Creaght ressaltou em sua palestra o erro do pensamento cartesiano foi ver o movimento como algo irracional.