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Investigaciones geográficas

versión On-line ISSN 2448-7279versión impresa ISSN 0188-4611

Invest. Geog  no.72 México ago. 2010

 

Notas y noticias

 

Mesa Redonda: Geografia e História: visões sobre o Brasil no Mundo

 

Mônica Sampaio Machado

 

Programa de Pós–Graduação em Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 26 de março de 2010

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 

A Mesa Redonda Geografia e História: visões sobre o Brasil no Mundo foi organizada pelo Programa de Pós–Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGEO–Uerj) e apoiada pelo Instituto de Geografia da Uerj e pelo GeoBrasil, Grupo de Pesquisa CNPq Geografia Brasileira: História e Política, em 26 de março de 2010.1 Compondo esta Mesa estavam os professores doutores Francisco Roque de Oliveira, da Universidade de Lisboa, que proferiu a palestra intitulada Jaime Cortesão no Itamaraty: os Cursos de História da Cartografa e da Formação Territorial do Brasil de 1944–1950; Cristina Pessanha Mary, da Universidade Federal do Fluminense, que discursou sobre O Brasil para a Sociedade de Geografia de Lisboa em fins do XIX; e Aniello Angelo Avella da Universidade de Roma Tor Vergata, que proferiu a palestra denominada Brasil e Itália: Momentos e figuras de uma nova geografia cultural. Este evento foi coordenado pela professora Mônica Sampaio Machado, também pesquisadora do GeoBrasil, coordenadora do Programa de Pós–Graduação em Geografia da Uerj. A idéia original desta Mesa era, antes de tudo, estabelecer uma reflexão sobre o Brasil dando particular acento à interpretação histórico–geográfica do Brasil no mundo. Assim, buscou–se oferecer à comunidade acadêmica interpretações do Brasil no Mundo realizadas por três pesquisadores, dois geógrafos, um português e uma brasileira, e um sociólogo italiano. O interesse internacional pelo Brasil não é novidade, mas parece ter havido um aquecimento, uma nova onda, muito associada à expressão alcançada pelo país no cenário político, econômico e científico mundial na última década.

O auditório do Evento com capacidade para 70 pessoas estava todo ocupado. Vale mencionar a presença do diretor do Instituto de Geografia da Uerj, Gláucio Marafon, que reforçou a importância da aproximação entre a graduação e a pós–graduação, assim como do diálogo entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros no Programa de Pós–Graduação em Geografia, e dos professores de Geografia da Uerj, Susana Mara Miranda Pacheco, Hindenburgo Francisco Pires, Aureanice de Melo Correia e André Novaes. Cabe ainda destaque, a presença do diretor do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro e adido cultural, Rubens Piovano, que gentilmente proferiu algumas palavras sobre a importância da aproximação cultural Brasil–Itália e a centralidade da Geografia nesse contexto, principalmente frente à comemoração do ano da Itália no Brasil, prevista para 2011, a primeira vez na história dos dois países que esta parceria acontece.

Após a abertura da Mesa, o geógrafo português Francisco Roque de Oliveira iniciou sua palestra defendendo a existência do que denominou de "terceira missão", mais informal, que se fala menos, a missão portuguesa no Brasil no século XX. Uma espécie de diáspora informal fruto da instauração da ditadura em Portugal que acabou levando ao exílio vários intelelectuais, muito diversa da formalidade e institucionalidade das missões francesas no Brasil, tanto a artística do século XIX quanto à universitária do século XX. Assim, Oliveira sustenta que houve uma atuação portuguesa no país no século XX, mas esta se processou informalmente, e não resultou de acordos estabelecidos entre as nações, como a foi à atuação francesa na formação da Geografia universitária em meados da década de 1930, conforme descrito por Mônica Machado (2009). Nesse sentido, essa missão foi caracterizada pela ação de indivíduos em lugares estratégicos de elaboração das políticas nacionais e internacionais, como é o caso do intelectual português Jaime Cortesão no Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A exposição de Oliveira foi desenvolvida em três partes. A primeira apresentou o percurso de Jaime Cortesão, sua biografa e proximidade com o Brasil. A segunda, suas principais obras e temas brasileiros estudados. A última, os cursos lecionados no Itamaraty, entre 1944–1950.2

Conforme Oliveira, Jaime Cortesão (Coimbra, 1884 – Lisboa, 1969) ingressou em vários cursos, como Grego, Direito, Belas Artes e Medicina, entre 1884 e 1910. Entretanto, concluiu apenas o de medicina, embora nunca tenha exercido a profssão. Freqüentou todas as universidades de Portugal, Coimbra, Porto e Lisboa. Em 1910 foi preso por participar do movimento estudantil contra a Monarquia e em seguida foi liberto pelo regime republicano. Como intelectual, destacou–se entre 1910 e 1927 e atuou como professor, publicista e político, entre 1910 e 1919. Participou da Primeira Guerra Mundial como voluntário, tendo sido um dos principais defensores da entrada de Portugal na Guerra, entendida por Cortesão como estratégica para a recuperação dos territórios em África. Dirigiiu a Biblioteca Nacional de Lisboa, entre 1919 e 1927, um espaço institucional muito importante, a partir do qual se aproximou do Brasil. Como intelectual e diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, Cortesão veio pela primeira vez ao país, ao Rio de Janeiro, em 1922, na comemoração do Centenário da Independência. Em 1926, com o fm da República portuguesa e instauração da ditadura, que permaneceu até 1974, Jaime Cortesão foi obrigado a deixar Portugal e se exilou na Espanha e na França até 1940. Impedido de ficar em Portugal pelo Governo Salazar, Cortesão encontrou refúgio no Rio de Janeiro, ficando aqui até 1957, quando retornou a Portugual, sendo preso pela ditadura, morrendo três anos mais tarde, em 1960.

Jaime Cortesão, segundo Oliveira, foi uma das figuras mais importantes da cultura portuguesa no início do século XX. Esteve exilado no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, então capital da Republica, durante 17 anos, construindo aqui a parte mais importante de sua obra histórica e geográfica. Cortesão lecionou no Rio de Janeiro cursos sobre história da cartografa e a formação territorial do Brasil, na então escola de diplomacia brasileira, depois denominada Instituto Rio Branco3, entre os anos 1944 e 1950. Oliveira descobre através da pesquisa documental centrada no espólio de Jaime Cortesão guardado na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, que Cortesão havia lecionado quatro cursos de Historia da Cartografa completamente diferentes. Estes cursos originaram quatro obras principais que Cortesão escreveu no Brasil: Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (9 vols. Rio de Janeiro, 1952–1961); Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil (Rio de Janeiro, 1958); Introdução à História das Bandeiras (2 vols., Lisboa, 1964); e, História do Brasil nos velhos mapas (Rio de Janeiro, 2 vols., 1957–1971).4 Guardando suas singularidades e contribuições, essas obras foram fundamentais para compreender a marcação dos limites e extensão do território brasileiro. A obra História do Brasil nos velhos mapas, primeira e última a ser editada no Brasil, sintetisa as aulas iniciais que lecionou no Rio e apresenta um estudo sobre a cartografa antiga do Brasil. Conforme Oliveira, Cortesão criou e lecionou o primeiro curso de história da cartografa no país. Na realidade, segundo Oliveira, este foi o primeiro curso da história da cartografa dado em qualquer parte do mundo, fruto da percepção de Cortesão sobre a importância da sistematização do conhecimento cartográfico, principalmente por necessidades geopolíticas. Assim, não é demais destacar que o primeiro curso da história da cartografa sistemática foi dada aqui, no Rio de Janeiro.

Oliveira apresentou também a importância dos trabalhos de Jaime Cortesão para o conhecimento do pensamento geográfico que sustentou a cartografa antiga. Nesse sentido, a contriuição de Cortesão à geoploítica brasileira foi especial e se efetivou, essencialmente, no Instituto Rio Branco. A parte mais significativa da obra de Cortesão foi elaborada com base nos cursos desenvolvidos no Ministério das Relações Exteriores e representou a defesa de uma teoria sobre a formação das fronteiras nacionais. Segundo essa interpretação, a cartografa portuguesa sobre o Brasil refletiu e difundiu a lenda de uma entidade territorial segregada, envolvida pela exuberância e características naturais próprias, que definiam e legitimavam sua configuração e extensão territorial. O sentido da obra de Cortesão sobre a investigação cartográfica realizada por Portugal da então Colônia, edificou uma plataforma de legitimação nacional para o Brasil, que em meados do século XX, quando Cortesão esteve por aqui, voltava com força no cenário político do país, frente à necessidade de consolidação da nação e da integração do território nacional daquele período.5

A segunda palestra foi proferida por Cristina Pessanha Mary, professora da Universidade Federal do Fluminense, sobre o debate do Brasil na então Seção da Sociedade de Geografia de Lisboa (SSGL), implantada na cidade do Rio de Janeiro, em fins do XIX, ainda no Brasil Imperial.6 Sua palestra foi desenvolvida em quatro partes. Na primeira foram apresentadas considerações sobre a criação, características e objetivos da Seção. A segunda destacou os principais indivíduos da Sociedade e suas atuações, como Luciano Cordeiro e Visconde de São Januário. Em seguida, foram apresentadas as iniciativas da Seção e, por ultimo, com intuito de avaliar os estudos dedicados ao Brasil, foram expostos os temas que esta Sociedade então discutia.

Conforme Cristina Mary, a Seção da Sociedade de Geografia de Lisboa no Brasil foi criada em 1878 e existiu até 1888, ano que marcou a passagem do Império para a República brasileira. Vale lembrar que o Rio de Janeiro naquele momento era o centro político e econômico da nação, portanto, o debate sobre o controle e a extensão territorial nacional ganhava grande expressão na cidade. Importantes instituições se destacavam na cidade carioca, dentre elas a Sociedade de Geografia e Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, criado anteriormente, em 1838. Conforme menciona Mary, o interesse pela Geografia naquele período não era incomum no mundo ocidental. No último quartel do século XIX, inúmeras sociedades geográficas animavam as capitais européias e ganhavam força também na América Latina. As principais discussões desses institutos estavam associadas às ambições expansionistas dos Estados nacionais europeus. Esse foi o caso da própria matriz da Seção em Portugal, a Sociedade de Geografia de Lisboa, criada em 1875, por um grupo de intelectuais que buscava fortalecer o colonialismo português, principalmente a manutenção dos territórios africanos, percebidos como garantia para um futuro de grandeza de Portugal.

Mary destacou que a conjuntura expansionista européia de finais do século XIX, promovia em Portugal uma vontade latente de voltar ao cenário das conquistas territoriais. Naquele período Portugal via–se deprimido econômica e cientificamente, abatido no plano internacional e na expansão colonial, perdendo territórios e primazia em África. Para refazer então a "nação abatida" e deixar para trás o sentimento de decadência e declínio, Portugal procurava resgatar seu papel pioneiro na ciência e na política internacional e trazia como emblema o Brasil, a "Colônia que deu certo". Portugal passou, então, a construir o projeto de recuperação dos territórios africanos a partir do discurso e do exemplo brasileiro, fortalecendo a idéia de construção de "um novo Brasil na África". A Seção da Sociedade de Geografia de Lisboa no Brasil surgiu, então, para buscar apoio da Colônia na reconquista africana.

Com esses propósitos, um grupo de intelectuais portugueses de Lisboa elaborou e implantou a SSGL no Brasil. Luciano Cordeiro, que havia sido representante de Portugal na Conferência de Berlim, foi um de seus defensores e fundadores. Cordeiro era um estudioso em epigrafas e sua intenção era buscar perflhar a história africana (sem escrita) à história portuguesa e demonstrar o pioneirismo e presença portuguesa em África. O primeiro presidente da SSGL, e também presidente honorário, foi Visconde de São Januário, ou Januário Correia de Almeida, que veio para o Brasil criar a Seção. Construiu uma carreira de sucesso em Portugal, tanto nas fleiras militares (pasta da Marinha e do Ultramar em 1880 e pasta da Guerra em 1886), quanto na administração de territórios coloniais.

Segundo Mary, no discurso proferido durante a reunião de criação da Seção da Sociedade de Geografia de Lisboa no Brasil, o visconde de São Januário, em clara alusão às afições acerca das disputas colonialistas no continente africano, afirmou o desejo de Portugal de não ficar atrás no grande movimento europeu para as grandes descobertas em África. O visconde anunciou ainda a criação, por Portugal, de um fundo africano destinado a promover explorações naquele continente. Assim, para fomentar tais iniciativas a Sociedade de Geografia de Lisboa resolve organizar seções nas localidades.

Conforme procurou demonstrar Cristina Mary, as principais iniciativas da SSGL no Brasil estiverem voltadas para ações na África. O levantamento de fundos, o fundo Africano, possibilitaria realizar e patrocinar expedições científicas, cartografar o território africano e impulsionar a cartografa portuguesa. Na realidade tratava–se de ajudar exclusivamente à empreitada portuguesa em África. Estações civilizadoras, estações junto aos rios, escolas coloniais, travessias políticas, como a do Serpa Pinto, explorador português, são algumas iniciativas da Seção da Sociedade no Brasil. Todas voltadas não para o Brasil, mas para levantar apoios científico, intelectual e financeiro no país para o fortalecimento de Portugal na corrida expansionista em África. O Brasil, então, em finais do período Imperial, não constava como tema de estudo e reflexão portuguesa no que tange ao desenvolvimento do território brasileiro. A visão voltada ao Brasil só emerge com o fm da Seção e a criação da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, que coincide com o início do período republicano. É nesse contexto que o sertão do Brasil passaria a ser objeto de estudo. Setores mais nacionalistas, ainda no Império, como a posição do Barão de Tefé, também um dos sócios fundadores da Seção, já defendiam estudos e ações para o Brasil. Segundo Tefé um país que desejasse figurar ao lado das nações mais adiantadas do globo, deveria antes de tudo conhecer o seu próprio território. Com a República e o rompimento diplomático com Portugal, a idéia de um Brasil como continuidade ibérica foi rompida e o projeto autônomo brasileiro impulsionado.

A terceira palestra foi proferida por Aniello Angelo Avella da Universidade de Roma, atualmente professor visitante do Programa de Pós–Graduação em Geografia da Uerj (PPGEO–Uerj), sob a denominação Brasil e Itália: Momentos e figuras de uma nova geografia cultural.7 Avella iniciou sua apresentação buscando demonstrar as interconexões entre as culturas brasileira e italiana, através da atuação de intelectuais brasileiros naquele país. Destacou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, que lá esteve entre 1952 e 1954, e o poeta Murilo Mendes, que o procedeu. Ambos lecionaram a disciplina Cultura Brasileira, na Universidade de Roma.

Avella sustentou suas argumentações recuperando algumas idéias e iniciativas de Sérgio Buarque de Holanda no período em que esteve na Itália. Segundo Avella, em 1954, Sérgio Buarque organizou uma revista, que hoje não mais existe, dedicada totalmente ao Brasil. Reuniu nela ensaios diferenciados e, sobretudo, textos de autores como Sérgio Milliet, Machado de Assis, Manoel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummont de Andrade, Vinicius de Moraes e Murilo Mendes. No prefácio, Buarque de Holanda ressaltou que entre Brasil e Itália deveria existir urna afinidade essencial e inelutável, que merecería estudos para o conhecimento recíproco entre os povos, duas culturas, táo distantes entre si no espaço, mas táo próximas nas suas raízes comuns e seculares. Sérgio Buarque fez ainda pesquisas nos arquivos de Roma, Veneza e Florença e reuniu extraordinário material que o levou a escrever não apenas o livro Visões do Paraíso, como vários ensaios publicados posteriormente no Brasil. Escreveu também outros textos que foram somente editados após sua morte, por iniciativa de Antonio Cándido, sob o título de Capítulos de Literatura Colonial. Candido destacou no prefácio desse livro, publicado em 1991, a importância dada por Sérgio Buarque para a realização de estudos sobre a infuência multiforme das letras italianas no Brasil. Esses estudos eram considerados por Sérgio Buarque de Holanda, ainda muito incipientes e mal estudados. Segundo Avella, hoje, após vinte anos da publicação desse livro, a situação continuava a mesma. As infuências da literatura e da cultura italianas no Brasil ainda precisam ser levantadas e melhor analisadas.

Acompanhando a sugestáo de Sérgio Buarque, Avella procurou delinear traeos marcantes de urna possível geografia cultural das relacóes entre Brasil e Itália, desde o período colonial. Defendendo a existência de relacóes intensas entre ambos os países, Avella passou, entáo, a exemplificálas através de nomes e atuacóes italianas no Brasil, como: Américo Vespúcio, em 1502, um dos primeiros europeus a descrever o Brasil e apresentar suas enormes potencialidades; Filippo Adorno, em São Vicente, entáo capitanía de São Paulo, e Florentino Filippo Cavalvanti, em Pernambuco, nomes associados ao desenvolvimento da produção de cana agregada à importação do escravo. Com relação aos Cavalcantis, Avella mencionou que, no século XIX, continuavam como grandes plantadores e representantes da indústria do acucar e, na atualidade, ainda urna das famílias mais antigás e importantes do Brasil.

Avella deu continuidade a sua palestra buscando sustentar a triangulação entre italianos, portugueses e brasileiros, seus afastamentos e aproximacóes, e a essencialidade do pensamento, da cultura e da atuação italiana, não apenas no Brasil, mas dentre os portugueses. Destacou como exemplo as ordens religiosas, e, especificamente, a Companhia Jesus, que possibilitou a formação de uma consciência local para uma maior receptividade entre os indígenas de certos valores universais, ou seja, católicos. Valores, que ressaltou, não serem apenas ibéricos ou portugueses. Apresentou exemplos de jesuítas italianos que estiveram no Brasil e escreveram sobre o país, como Giovanni Antonio Andreoni, Antonil, e seu livro Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, publicado em 1711.

No século XIX, principalmente após a Independência brasileira, segundo Avella houve um aumento do número de italianos originários da Toscana no Rio de Janeiro, núcleo que foi sendo consolidado após o casamento de Teresa Cristina de Bourbon, irmã do então rei de Nápoles, Fernando II, com D Pedro II. Recorrendo novamente a Antonio Candido, Avella assinalou que o segundo reinado foi o período decisivo na construção do sistema de relações sociais e culturais entre Brasil e Itália.

Nesse sentido, Avella enxerga em Teresa Cristina outro exemplo de conexão entre Brasil e Itália. Os poucos estudos historiográficos realizados, tanto aqui quanto na Itália, sobre Teresa Cristina tem a reduzido a uma sombra de D. Pedro II , uma figura apagada, submissa, sem maiores encantos físicos, uma imperatriz silenciosa. Conforme Avella essa interpretação é uma forma de cegueira, que pode ser desvelada pela consulta das cartas e outros documentos da imperatriz guardados no Museu Imperial, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Os documentos levantados por Avella indicam uma figura totalmente diversa, uma mulher muito culta e com amplo conhecimento em música, literatura e política. Sua dedicação à arqueologia tornou–a conhecida entre os arqueólogos italianos. Teresa Cristina patrocinou escavações na Itália e acabou estabelecendo um intercambio entre Brasil e Itália, trazendo para cá, objetos arqueológicos e enviando para lá, objetos de arte indígenas. Hoje existe o Museu Etnográfico na Itália, um dos maiores da Europa, com uma coleção brasileira vigorosa.

Com a presença e da atuação da Imperatriz no Brasil, numerosas infuências italianas deixaram de ser episódicas e se tornaram sistêmicas. Italianos do Sul chegaram ao país e tornaram–se empresários, trabalhadores da citricultura, do carvão, da indústria, de serviços, em bancas de jornal, dentre outros. A infuência italiana se projetou, assim, em todas as camadas sociais, diferentemente da infuência francesa. Conforme já ressaltava Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda, os estudos desenvolvidos sempre tenderam a dar maior relevo à cultura francesa em detrimento de outras. Embora ela não deva ser esquecida, a cultura francesa deve ser colocada em um plano mais discreto. Assim, Avella finalizou sua apresentação defendendo a necessidade de construção de uma renovada geografia das relações entre Brasil, Itália e Portugal, uma triangulação que não pode ser evitada de forma alguma, sobretudo, frente às características da cultura brasileira, que fundou suas raízes a partir das relações e do cruzamento de várias culturas.

O evento foi encerrado pela coordenação da Mesa que apresentou considerações finais. Após o agradecimento aos palestrantes, foram ressaltadas a qualidade dos trabalhos e a relevância da temática discutida, não apenas por colocarem em foco estudos a partir da relação histórico–geográfica, buscando abordagens renovadoras, mas sobretudo, pela possibilidade de construção de uma reflexão "brasileira" de natureza política e democrática sobre o Brasil da atualidade no Mundo. Nesse sentido, as palestras trouxeram exemplos de visões do Brasil no plano mundial, e constituem, assim, objetos de estudos para a elaboração de uma interpretação do Brasil mais "indígena", mais endógena, ou seja, uma interpretação partir de marcos e contribuições menos orientadas pela história e geografia européia. Para tanto, a continuidade do Evento é fundamental, uma vez que fomentaria a participação de intelectuais de origens diversas, interessados no Brasil, e chamaria a atenção dos pesquisadores da Geografia brasileira para a necessidade de construção de interpretações contemporâneas da cultura e ciência brasileiras.

Na realidade, como já mencionou Milton Santos (2000 e 2001), a entrada do século XXI marcaria uma nova época para o Brasil, lhe exigindo repostas e posicionamentos originais. Um Brasil que foi sendo composto por uma sinfonia de infuências culturais, talvez esta seja uma das suas principais singularidades, se comparado aos países latino–americanos. Para cá vieram não apenas franceses, que foram formalmente convidados pelo Governo brasileiro, italianos e portugueses, como também alemães, eslavos, turcos, árabes, espanhóis e japoneses. Caberia agora ao Brasil, "um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza", orquestrar essa sinfonia de infuências e fazer sua música.8

Para encerrar vale salientar que em comum às palestras está a centralidade do Rio de Janeiro. Todas as apresentações reafirmaram a importância do Rio não apenas pelas dádivas geográficas e pela cristalização histórico–cultural que a cidade desfruta, resultado de sua longa condição de capitalidade, mas sobretudo, por estarem aqui os arquivos nacionais, sede da memória do Brasil e registros do país no mundo e do mundo no pais.

 

REFERÊNCIAS

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Avella, A. A., C. S. Weyrauch et M. A. R. Fontes (orgs.; 2007), Travessias Brasil–Itália, eduerJ, Rio de Janeiro.        [ Links ]

Geiger, P. (2003), As formas do espaço brasileiro, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.        [ Links ]

Machado, M. S. (2009), A construção da Geografia Universitária no Rio de Janeiro, Apicuri, Rio de Janeiro.        [ Links ]

Magnoli, D. (1997), O corpo da Pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808–1912), Editora Moderna, Unesp, São Paulo.        [ Links ]

Mary, C. P. (2010), Geografias Pátrias, Portugal e Brasil, 1975/1889, Editora da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro.        [ Links ]

Moraes, A. C. R. (2000), Bases da formação territorial do Brasil: o território colonial brasileiro no "longo" século XVI, Hucitec, São Paulo.        [ Links ]

Oliveira, F. Roque de (2008), "II Simposio Iberoamericano de Historia de la Cartografía. La cartografía y el conocimiento del territorio en los países iberoamericanos, Ciudad de México, 21–25 de abril de 2008", en Investigaciones Geográficas, Boletín, núm. 66, Instituto de Geografia, UNAM, México, pp. 167–171.        [ Links ]

Philo, Ch. (1996), "História, Geografia e o "mistério ainda maior" da Geografia histórica. Geografia Humana: sociedade, espaço e ciência social", en Gregory, D., R. Martin, G. Smith y J. Zahar (eds.), Rio de Janeiro, pp. 269–298.        [ Links ]

Santos, M. (2000), Território e sociedade: entrevista com Milton Santos (entrevistadores, Odette Seabra, Mônica de Carvalho, José Corrêa Leite), Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo.        [ Links ]

Santos, M. (2001), O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, Editora Record, São Paulo.        [ Links ]

 

NOTAS

1 Cris Philo (1996), no artigo História, Geografia e o mistério ainda maior da Geografia histórica, apresenta uma nova abordagem para estudos em Geografia e História. Defende a opção da História Geográfica em substituição à Geografia Histórica e destaca a importância da sensibilidade geográfica nas investigações. A organização desse Evento tem como eixo a sensibilidade geográfica nos estudos da história.

2 A dedicação de Oliveira ao estudo da cartografa pode ser averiguada pela sua produção intelectual e pelos seus temas de investigação. Sugere–se consulta à página da Universidade de Lisboa, http://www.ceg.ul.pt/investigadores.asp?id=80 e ao artigo: "II Simposio Iberoamericano de Historia de la Cartografa. La cartografía y el conocimiento del territorio en los países iberoamericanos, Ciudad de México, 21–25 de abril de 2008" (Oliveira, 2008).

3 O Instituto Rio Branco é responsável pela seleção e treinamento dos diplomatas brasileiros. Pertencendo ao Ministério das Relações Exteriores, o Instituto foi fundado em 1945 e sua denominação é uma homenagem ao Barão do Rio Branco, responsável pela consolidação das atuais fronteiras do país, no período em que esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores entre 1902–1912, e por importante modernização das ações da Chancelaria Brasileira.

4 A contribuição intelectual de Jaime Cortesão não se resume apenas as quatro obras mencionadas. Francisco de Oliveira lista e apresenta a ampla produção intelectual do autor estudado.

5 Para o estudo da contribuição de Jaime Cortesão à Geografia Brasileira, sugere–se a leitura de Magnoli, 1997 e Moraes, 2000.

6 Cristina Pessanha Mary acaba de publicar o livro: Geografias Pátrias, Portugal e Brasil, 1975/1889, fruto de sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós–Graduação em História Social da UFRJ, em 2006. A palestra por ela proferida desdobrou–se das pesquisas realizadas em seu doutoramento.

7 Duas publicações de Aniello Avella merecem aqui destaque, Avella et al., 2007; Avella, 2009.

8 Sugere–se a leitura da obra, As formas do espaço brasileiro, de Pedro Geiger (2003), uma interpretação original e contemporânea do Brasil. As características geográficas do país são associadas às realidades culturais, políticas e econômicas da nação, como a tropicalidade e a exuberância da natureza.

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