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Investigaciones geográficas

versión On-line ISSN 2448-7279versión impresa ISSN 0188-4611

Invest. Geog  no.72 México ago. 2010

 

Geografía física

 

O uso atual do solo e da água na bacia do ribeirão Piçarrão–Araguari–MG–Brasil

 

The present use of soil and water in the basin of the creek Piçarrão–Araguari–MG–Brazil

 

*Elizabete Oliveira Melo e *Manfred Fehr

 

* Instituto de Geografía, Universidade Federal de Uberlândia, Campus Santa Mônica, Bloco 1H, Caixa Postal 811, 38400 974, Uberlândia MG, Brasil. E–mail: prosec22@yahoo.com.

 

Recibido: 15 de noviembre de 2008.
Aceptado en versión final: 30 de marzo de 2009.

 

Resumo

A expansão agrícola ocorrida na bacia do Ribeirão Piçarrão de 1970 a 2005 produziu mudanças no uso do solo e da água até agora não documentadas. Fez–se um diagnóstico da situação atual e avaliaram–se as perspectivas da atividade agrícola na bacia. O estudo se apoiou em informações da literatura, em entrevistas com 16 produtores rurais e em trabalhos de campo na área do ribeirão e de seus afuentes. Os resultados apresentam–se em forma de mapas e tabelas. Verificou–se que a área total drenada da bacia é de 388 km2, que a irrigação agrícola se processa com nove pivôs, e que a vazão do ribeirão varia de 1.5 a 80.0 m3 por segundo com uma média anual de 8.0 m3 por segundo. Concluiu–se que a disponibilidade de água será o fator limitante do desenvolvimento agrícola na bacia.

Palavras chave: Agricultura irrigada, Araguari, expansão agrícola, Ribeirão Piçarrão, uso do solo e da água.

 

Abstract

The agricultural expansion in the basin of the creek Piçarrão during the period from 1970 to 2005 produced changes in the use of soil and water that heretofore had not been documented. A diagnosis of the present situation was carried out to evaluate the prospect of agricultural activity in the basin. The literature was reviewed, 16 rural producers were interviewed, and the creek and its tributaries were inspected. The results of the study are presented in form of maps and tables. The total area drained by the creek is 388 km2, nine pivots do the agricultural irrigation, and the creek's flow rate varies between 1.5 and 80.0 m3 per second with an annual average of 8.0 m3 per second. The study identified water availability as main limiting factor of agricultural development in the basin.

Key words: Agricultural expansion, Araguari, irrigated agriculture, Piçarrão creek, soil and water use.

 

INTRODUÇÃO

Localização da área de estudo

A região de Araguari – Brasil, onde se encontra a área deste estudo, é uma região de diversas práticas econômicas, devido à sua riqueza hídrica, tanto subterrânea como fluvial, necessária a qualquer produção, assim como a geomorfologia plana, que facilita a agricultura, também beneficiada pelo clima da região (Rosa, 1992). Com variadas atividades, tanto de subsistência como industriais de grande escala, todas coexistindo nessa área, o impacto ao meio ambiente é algo preocupante e leva pesquisadores e estudantes a desenvolverem estudos para tentar minimizar os danos (IBGE, 1979; Ferreira, 2001).

A cidade de Araguari usufrui em vários aspectos do Ribeirão Piçarrão, tanto turisticamente, em função da beleza do lugar, como economicamente. A dinâmica agrícola da bacia do Piçarrão é comandada pela expansão da produção de grãos, como o milho, a soja, e a atividade cafeeira de base modernizadora, com o uso de irrigação (Assunção, 2002; Pessôa, 1999). Todos esses produtos estão fortemente articulados ao setor agroindustrial. A intensidade da exploração agrícola na região varia de acordo com o tipo e com a técnica dos cultivos, que vão desde extrativismo vegetal, pastagens naturais e forestas cultivadas, às lavouras temporárias intensamente mecanizadas, consideradas as mais impactantes ao meio ambiente (Martine e Garcia, 1987; Graziano, 1999).

Araguari se insere na mesorregião geográfica Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba (Figura 1), sendo delimitada pelos Rios Paranaíba, ao norte (que a separa do Estado de Goiás), e Araguari, ao Sul, no sentido SE–NO, nas divisas com os municípios de Uberlândia e Tupaciguara e nas divisas com os municípios de Cascalho Rico e Estrela do Sul, em toda extensão leste e no franco Sudeste, pelo município de Indianópolis.

A bacia do Ribeirão Piçarrão, a qual ocupa uma área de 388 km2, localiza–se no município de Araguari, entre as coordenadas geográficas 18°37'53 "e 18° 53' 04" de latitude Sul, e 47° 44' 44"e 48° 07' 12" de longitude Oeste.

O Ribeirão Piçarrão nasce no município de Estrela do Sul (MG) e é um dos formadores do rio Jordão. Sua nascente está dentro de uma área de reforestamento que pertence a uma empresa especializada. Seus principais afuentes de margem direita são: córrego Lajeado, córrego Arizona e córrego Buriti Quebrado; de margem esquerda: córrego Lagoa Seca, córrego Campo Alegre, córrego Taboca, córrego Estiva, córrego Pindaituba, e córrego Buriti Alto.

A pesquisa teve como objetivo realizar um diagnóstico da situação atual do uso do solo e da água e avaliar as perspectivas da atividade agrícola na bacia.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

O desenvolvimento da pesquisa

O processo de investigação para compreender as transformações ocorridas no Ribeirão Piçarrão, a partir da década de 1970, estruturou–se em três etapas. A primeira etapa foi desenvolvida através de levantamento de literaturas referentes ao tema da pesquisa, junto às bibliotecas da Universidade Federal de Uberlândia – UFU, Biblioteca Municipal de Araguari, informações de órgãos municipais, Instituto Brasileiro de Geografía Estatística – IBGE, artigos, fontes estatísticas, e jornais, com o objetivo de coletar informações que pudessem auxiliar a análise da pesquisa.

A segunda etapa se constituiu na elaboração e digitalização do mapa de uso do solo da Bacia do Piçarrão. Toda essa parte técnica foi desenvolvida no laboratório de geoprocessamento da UFU no período de dezembro de 2004 a maio de 2005.

Para a realização dos mapas de uso do solo, utilizaram–se os seguintes materiais: cartas topográficas da DSG (Diretoria dos Serviços Geográficos do Exército) do ano de 1982 na escala 1: 25 000, em uma ampliação na escala de 1: 15 500, e imagens de satélite dos sensores ETM+/LANDSAT 7 de 11/10/2002, e do sensor CCD/CBERS 2 de 08/09/2004 e 30/05/2004. Os softwares utilizados nessa etapa de pesquisa foram o "cartalinx" e o "spring 4.1".

Sob as imagens inseridas no "spring 4.1" foram elaborados dois mapas de uso do solo e cobertura vegetal, um para o ano de 2002 e outro para o ano de 2004.

A partir dessas cartas–imagens foi possível identificar, delimitar e mapear as seguintes categorias: Reforestamento cortado, Pastagem, Mata ciliar, Cerrado, Cultura Irrigada, Cultura Anual, Cultura Perene, Corpos d'água e Campo hidrófílo.

De posse dos dois mapas, prosseguiu–se para uma análise comparativa focando principalmente atividades agrícolas e, de uma forma geral, a evolução da ação antrópica dentro da área da bacia. Resultou também na produção de uma tabela com a representação percentual de cada categoria nos anos de 2002 e 2004, facilitando assim a interpretação dos resultados da classificação da imagem.

A terceira etapa do processo de investigação, a pesquisa de campo, foi realizada em várias fases. Num primeiro momento foi feita uma visita geral nos pontos mais relevantes da bacia do Piçarrão, onde foram feitas fotografas e coletadas informações em diversos locais da área de estudo.

O passo seguinte foi a elaboração do roteiro de entrevista, o qual foi testado em visitas de sondagem, realizadas em uma das fazendas. A partir dessas visitas, reestruturou–se o roteiro de entrevistas e definiu–se a amostra a ser entrevistada, a saber, 16 produtores (pequenos, médios e grandes). O número proposto representa 32% do universo de produtores da bacia.

De posse de tais informações, partiu–se para a organização e sistematização dos dados em tabelas e gráficos e para a organização do material fotográfico obtido no campo.

Por último, foi feita a discussão dos resultados da pesquisa, a partir da análise e interpretação dos dados sobre a situação ambiental do Ribeirão Piçarrão e sobre sua utilidade futura.

Processo de modernização agrícola na bacía do ribeião Piçarráo

De acordo com os dados obtidos a partir das entrevistas realizadas com os 16 produtores do Piçarráo, observa–se que em 1980 o principal produto cultivado na região era o café. De acordo com os entrevistados, com a queda do preço do café no mercado internacional, o processo de diversificação foi retomado, fazendo com que se buscassem alternativas econômicas à produção cafeeira, destacando–se culturas de soja e milho. Além disso, houve urna tendência à modernização do setor, com a adoção de práticas mais adequadas em todas as etapas do processo produtivo, a utilização mais intensa de novas tecnologias e a preocupação constante com a qualidade e redução dos custos. Existe a preocupação em adequar as potencialidades naturais do solo ao plantio, por meio da análise química, realizada pela totalidade dos produtores, e da correção do solo, realizada em 87–5% dos estabelecimentos. A adubação é outra prática também adotada em 87–5% dos estabelecimentos pesquisados.

"O uso intensivo de adubação química apresenta–se como a forma mais fácil, embora não seja a mais indicada nem a mais barata. No período de euforia, durante a década de 70, houve excesso desta prática chegando a ameaçar a própria estrutura do solo" (BRUM, 1988:87). No que se refere ao uso de maquinários, constatou–se que 100% dos entrevistados possuem maquinário próprio, 93–75% deles possuem trator, 62.5% possuem colheitadeiras e 62.5% possuem outro tipo de equipamento.

Quanto à assistência técnica, apenas 18.75% dos produtores entrevistados declararam não contar com a mesma por serem agrónomos e fazerem sua própria assistência. A assistência técnica é feita por visitas que ocorrem de acordo com a necessidade do produtor (100% dos casos), sendo constituída por visitas semanais (37–5% dos casos) e diárias (25% dos casos).

Urna grande quantidade de dinheiro foi colocada à disposição dos produtores rurais, à medida que a modernização da agricultura avançava (Chagas, 2002; Cunha, 1994). O crédito estava disponível para todas as etapas do processo produtivo. De acordo com (BRUM, 1988:120), "O crédito fácil e barato foi o principal fator do processo de modernização da agricultura".

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O uso atual do solo na bacía do ribeião Piçarráo

De acordo com Gifoni (2005), os mapas de uso do solo foram produzidos a partir de imagens do ano de 2002 (Figura 2) e 2004 (Figura 3), ñas quais foram encontradas as classes de: reforestamento, reforestamento cortado, cultura anual, cultura perene, cultura irrigada, pastagem, mata, mata ciliar, campo hidrófílo, corpos d'água e cerrado. Essas classes sofreram algumas modificações quanto à extensão, forma e quantidade, e não são perceptíveis apenas com a observação do mapa. Contudo, por meio de cálculos de área gerados no programa "spring 4.1" em hectares, foi possível tabular esses dados e gerar urna tabela (Tabela 1), para melhor expressar os resultados em porcentagem.

Na Tabela 1, verifica–se o uso do solo da bacia do Ribeirão Piçarrão nos anos de 2002 e 2004. Observa–se que no ano de 2002 o reforestamento representou 33.7%, o reforestamento cortado 3.8%, a cultura anual 32.7%, a cultura perene 2.0%, a cultura irrigada 1.1%, a pastagem 0.8%, a mata 0.3%, a mata ciliar 2.6%, o campo hidrófílo 22.5%, os corpos d'água 0.1% e o cerrado 0.4%.

Já no ano de 2004 os resultados encontrados foram: reforestamento, com 37.6%; reforestamento cortado, com 1.9%; cultura anual, com 29,7%; cultura perene, com 3.3%; cultura irrigada, com 1.5%; pastagem, com 1.8%; mata, com 0.8%; mata ciliar, com 2.2%; campo hidrófílo, com 21.0%; corpos d'água, com 0.1%, e cerrado, com 0.1%.

Os mapas produzidos revelaram que a produção agrícola é intensa e bem variada, apesar da maior área em hectares estar ocupada por reforestamento pertencente à empresa especializada. Logo após essa classe a que mais se destaca em tamanho é a cultura anual, principalmente de soja, que em alguns lugares aumentou de 2002 a 2004, prolongando–se até quase a margem do Ribeirão Piçarrão.

As classes de uso de menor tamanho são os corpos d'água e a cobertura vegetal do cerrado, tendo ainda diminuído de 2002 para 2004, o que é um fator preocupante, uma vez que ela era a vegetação dominante originalmente.

Uma parcela do reforestamento que estava cortado em 2002 já apresentava no ano de 2004, espécies de grande porte. Em meio a essa grande parte coberta por reforestamento está a classe de campo hidrófílo, comum principalmente nas margens dos corpos d'água e nas áreas úmidas.

A cultura anual diminuiu, mas em contrapartida, a mecanização das lavouras se mostrou forte com a introdução de pivôs, o que fez aumentar a porcentagem da cultura irrigada na Tabela 1. A cultura perene também ocupou o lugar do que antes era cultura anual, aumentando seu percentual em 2004.

A pastagem também apresentou mudanças, aumentando de tamanho e tomando o lugar de algumas áreas de mata ciliar, configurando–se como um dado preocupante, pois está destruindo áreas de Preservação Permanente do Ribeirão. As áreas de Campo hidrófílo e Mata tiveram modificações pequenas.

É notável e alarmante que a ação antrópica está fazendo desaparecer a vegetação natural, o que é uma conseqüência da grande necessidade de produção e consumo humano. Infelizmente isso leva a grandes impactos e perdas na natureza. Como pode ser visto na Tabela 2, no lapso de apenas dois anos, os usos originais do solo como mate ciliar, campo hidrófílo e cerrado perderam 2.2% de sua extensão.

O Ribeirão Piçarrão também está sendo freqüentado, há algum tempo, pela população do município de Araguari, em virtude de ser uma das áreas de lazer de maior beleza da região, sendo muito procurada nos finais de semana e feriados. Atualmente, observa–se certa degradação da área, que é causada, principalmente, pela visitação espontânea, predatória e sem controle, além da ocupação e forma do uso do solo no seu entorno.

O local tem sido procurado não somente pela paisagem encontrada, mas também como uma área de lazer onde os visitantes podem acampar, fazer piqueniques, pescar e tomar banho no Ribeirão.

A atual forma de utilização do Ribeirão vem lentamente descaracterizando a vegetação natural, o que futuramente pode causar graves problemas ao solo, que fica desprotegido e suscetível a atividades erosivas. A área não apresenta mata ciliar alguma.

Na Figura 4 é possível observar que a área é utilizada como área de lazer público e desenvolve conseqüentemente um turismo sem a infraestrutura adequada. A destruição da fauna e fora ocorre principalmente em função da poluição das águas, provocada pelos freqüentadores. O excesso de pessoas nessas áreas naturais nos finais de semana contribui para o desaparecimento de várias espécies de animais e plantas, devido ao pisoteio, coleta de plantas e fores, queima de árvores e vandalismo. Às vezes, em um único final de semana, pode–se registrar a presença de até 800 pessoas.

A atividade turística é, sem dúvida, uma das atividades econômicas com maior interfase nas questões ambientais, uma vez que age diretamente sobre o uso dos recursos naturais e culturais, que são via de regra, seu principal fator de atratividade.

Um produtor da região relatou que:

Tive que trancar minha propriedade devido à invasão de pessoas que visitam o ribeirão nos dias quentes de verão. Minha família está impossibilitada de usar o ribeirão, porque quando a água chega a minha propriedade já está suja.

Os impactos ambientais são visivelmente percebidos e sentidos pelos produtores do local, que se sentem degradados, junto ao meio ambiente, pelo corte de árvores e o lixo deixado pelos visitantes. De acordo com as entrevistas, constata–se que o maior problema ocasionado pelo visitante do Piçarráo é o lixo. Existe urna preocupação, da parte da secretaria de turismo, em tentar sanar esse problema na região.

Utilização da água do ribeião Piçarráo e de seus afluentes para irragação

O mercado globalizado tem influenciado definitivamente a atividade agropecuária, urna vez que o consumidor se tornou mais exigente em relação à qualidade dos produtos, especialmente os alimentares. Em função disso, o grau de uso de novas tecnologias dos produtores da bacia do Piçarráo tem avançado a cada dia e eles tem investido em novos sistemas de condução das lavouras, adotando as práticas de irrigação, o que demonstra o interesse desses produtores em garantir maior produtividade e qualidade.

A irrigação (Tabela 3) é a prática que melhor caracteriza o uso de tecnología, adotada por 62.5% dos estabelecimentos pesquisados, entre os quais 37–5% utilizam a irrigação por gotejamento, 12.5% por tripa e 6.25% dos entrevistados utilizam o pivó central. Entre os produtores entrevistados, 12.5% utilizam em suas propriedades pivó e gotejamento e 31.25% não irrigam suas terras. De acordo com mapa de uso do solo e com a pesquisa de campo, constata–se que a área total drenada é de 388 km2 e foram identificados nove pivôs na bacia do ribeião Piçarráo.

A presença controlada de água na produção agrícola, mediante o uso de irrigação, permite ao agricultor, acostumado tradicionalmente a colher urna safra por ano (época das chuvas), ampliar o número de safras, passando a cultivar em diferentes épocas ou estações e tendo possibilidade de colheitas na entressafra. Esse tipo de cultivo pode melhorar a lucratividade da produção pela remuneração extra que se obtem, colocando o produto no mercado no momento de falta do mesmo. Segundo declaração de dois entrevistados, "sem irrigação não consegue nada na entressafra" e "o fato de não ter a irrigação inviabiliza a cafeicultura devido às oscilações climáticas".

Ainda sobre a irrigação, é válido registrar as declarações de três entrevistados que disseram que "se não irrigar não produz". Um deles declarou que "todos que puderem utilizar a água para irrigação vão utilizar para aumentar a produtividade" e outros dois disseram que "tem que aproveitar bem a irrigação para gastar menos água."

Da amostra, 25% dos entrevistados pretendem ampliar a área irrigada no próximo ano e 75% não tem essa intenção. Um dos produtores declarou, a respeito de sua propriedade, que "vários poços foram desativados por motivo da mudança do cultivo do café para soja e 340 000 pés de café foram retirados para plantar soja."

O recurso da irrigação é a água e, como a competição com outros setores vem crescendo rapidamente, a própria água poderá tornar–se o fator limitante para o desenvolvimento da irrigação. Considerando a questão ambiental, a legislação é estabelecida com o objetivo de regulamentar o uso dos recursos hídricos pelos usuários e de estabelecer instrumentos de gerenciamento, como a outorga do uso da água e a cobrança pela utilização dos recursos hídricos (Gobbi, 2002; Brasil, 1997).

Os produtores da bacia do Piçarrão entrevistados na pesquisa de campo declararam que possuem a outorga da água utilizada para irrigação.

De acordo com informações adquiridas por meio de entrevista com o engenheiro projetor de outorgas da empresa responsável em 2006, a área total da bacia do Ribeirão Piçarrão drenada é de 388 km2. A vazão mínima é de 1 500 litros por segundo, a média é de 8 000 litros por segundo, e a máxima: 80.000 litros por segundo.

Segundo declaração do engenheiro,

A bacia toda no geral tem um grande potencial de água subterrânea. A água utilizada para irrigação não vem toda do córrego, utiliza–se muita água subterrânea. Se retirassem somente água dos córregos, a água não daria para irrigar a bacia toda. Os córregos Pindaituba e Lajeado já atingiram seu limite, não comportam um aumento da área irrigada.

Os impactos do uso atual da água e do solo na bacia do ribeião Piçarráo

Os impactos ambientais presentes na bacia do ribeião Piçarráo estão relacionados a um conjunto de fatores internos e externos do sistema socioeconómico ligado ao tipo de ocupação e manejo do solo que refletem, em grande parte, o descumprimento das legislacões ambientais (Dias, 1992; Ehlers, 1999; Novaes, 1993).

A soja é urna cultura responsável por diversos impactos ambientais . Produtos da Revoluçáo Verde são intensivamente aplicados em 80% de suas lavouras, o que faz dessa cultura urna grande consumidora de produtos agroquímicos (metade do mercado nacional de herbicidas). A sojicultura é também grande usuária de máquinas agrícolas, o que ocasiona o aumento da erosão e da degradação dos solos.

A utilização não planejada da irrigação também resulta em prejuízos à natureza, podendo ocorrer o esgotamento dos recursos hídricos, devido ao uso indiscriminado das fontes, além da destruição dos ecossistemas ribeirinhos.

O represamento e o desvio do curso dos córregos diminuem o volume de água disponível ñas áreas próximas de seu leito original, prejudicando outros fazendeiros que deles se abastecem.

O uso indiscriminado de defensivos acarreta a contaminação da água, do solo e do ambiente natural em geral, além do fato de que os efeitos do uso de altas concentracões de corretivos e fertilizantes no solo em longo prazo são pouco conhecidos.

Outro grave impacto do uso de defensivos é o empobrecimento dos ecossistemas em espécies nativas e, posteriormente, a possibilidade de aparecimento de pragas e a disseminação de ervas daninhas.

De acordo com as entrevistas, percebe–se que alguns produtores não tem reserva ecológica ñas propriedades porque o preço da terra é alto demais. Nesse sentido, seria económicamente inviável deixar as áreas de reservas se regenerarem.

Segundo declaração de um dos produtores entrevistados no trabalho de campo: "Plantei mata ciliar, porque não tinha. A reserva é fora da fazenda e a discussão de comprar reserva fora da cidade surgiu com a experiência de urna das fazendas".

 

CONCLUSÕES

Com este trabalho foi possível identificar que o Ribeião Piçarráo é palco de várias transformac˜es, que se devem à adoção da modernização da agricultura. Os produtores buscam obter maior produtividade e competitividade com a substituição da máo–de–obra pela máquina, com o uso da irrigação e, ainda, com a utilização de insumos produzidos pelo setor não agrícola.

Assim, constatou–se na bacia que a mecanização das lavouras se mostra forte, com a introdução de nove pivˆs. A bacia do Piçarráo, como um todo, comporta um aumento da área irrigada porque tem um grande potencial de água subterrânea, mas os córregos Lajeado e Pindaituba não suportam esse aumento da área irrigada, pois já atingiram seu limite de fornecimento. A água utilizada para irrigação não é captada somente do ribeião, utiliza–se também água subterrânea.

Antevendo o crescimento da área irrigada na bacia do Piçarráo, será preciso que os produtores da região entendam que a disponibilidade de água poderá tornar–se um dos fatores limitantes para o desenvolvimento da agricultura irrigada. Desta forma, o estabelecimento de regulamentacões para o uso dos recursos hídricos se faz necessário para que se possam estabelecer rígidos instrumentos de gerenciamento e controle do uso racional desses recursos.

A irrigação, que constituí um fator que contribuí para o aumento da produção agrícola na bacia, precisa ser operada de forma eficiente e adequada, sob o ponto de vista ambiental, para não se tornar elemento gerador de problemas oriundos da produção intensiva.

Fazendo urna análise geral de como se apresenta a ocupação, da área pesquisada de modo a manter áreas de preservação, é preocupante o fato de que, em toda bacia, existam pequenas manchas de cerrado, que são dificilmente encontradas. Pouquíssimas áreas de preservação podem ser encontradas, principalmente ao longo do curso do Ribeirão Piçarrão, que é determinado por lei como uma APP (Área de Preservação Permanente).

É muito importante, portanto, que se faça um planejamento do uso dos recursos do solo e hídricos na bacia do Ribeirão Piçarrão para que se possa continuar a utilizá–la por muitos anos, sem causar danos irreversíveis.

 

REFERÊNCIAS

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