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CONfines de relaciones internacionales y ciencia política

versión impresa ISSN 1870-3569

CONfines relacion. internaci. ciencia política vol.20 no.39 Monterrey ago./dic. 2024  Epub 05-Mayo-2025

https://doi.org/10.46530/cf.vi39/cnfns.n39.p82-9182 

Savoir faire

Manutenção do acesso ao campo: Uma visão a partir de imersão etnográfica com militares*

Mantener el acceso al campo: una visión desde la inmersión etnográfica con militares

Anaís Medeiros Passos1 

1Universidade Federal de Santa Catarina


Resumo:

Em neste artigo reflito sobre como as circunstâncias políticas afetam o trabalho de pesquisa, especialmente na negociação de acesso e permanência no campo, concentrando-me no estudo das forças armadas no Brasil e no México. No contexto de uma imersão etnográfica, negociar a entrada no campo envolve considerações de idade, gênero e neutralidade política, especialmente ao interagir com “guardiões institucionais”. Além disso, descrevo os desafios de manter o acesso ao campo à medida que as dinâmicas político-militares evoluem e os analiso questionando meu papel como pesquisadora em contextos politizados.

Palavras-chave: métodos qualitativos; imersão etnográfica; estudos de elite; estudo das forças armadas; reflexividade

Resumen:

En este artículo reflexiono sobre cómo las circunstancias políticas afectan al trabajo de investigación, especialmente al momento de negociar el acceso y la permanencia en el campo, centrándome en el estudio de las fuerzas armadas en Brasil y México. En el contexto de una inmersión etnográfica, la negociación de la entrada en el campo implica consideraciones de edad, género y neutralidad política, especialmente cuando se interactúa con “guardianes institucionales”. Además, describo los retos de mantener el acceso al campo a medida que evolucionan las dinámicas político-militares y los analizo cuestionando mi papel como investigadora en contextos politizados.

Palabras clave: métodos cualitativos; inmersión etnográfica; estudios de las élites; estudio de las fuerzas armadas; reflexividad

Introdução

Neste ensaio, reflito sobre como as circunstâncias políticas se somam a questões pessoais da pesquisadora e criam zonas de aproximação e afastamento em relação ao objeto de pesquisa, exigindo diferentes estratégias para a negociação e permanência no campo, ou mesmo o inviabilizando. Abordo estes dilemas epistemológicos e metodológicos a partir da minha experiência em pesquisar os militares.

Em países que protagonizaram uma transição democrática tardia e lenta para a democracia como é o caso do Brasil, os militares mantiveram importantes áreas de autonomia dentro do sistema político. O fato que estes sejam elites levanta dilemas específicos para a negociação da entrada e da permanência no campo, dependente do contexto político e do posicionamento ideológico do/a pesquisador/a. Enquadrando este objeto a partir da imersão etnográfica, considero que, para conhecer os militares, é preciso conhecer o discurso que estes têm sobre eles mesmos, o que se revela na fala e na postura, com seus ícones e símbolos. Logo, este ensaio parte das negociações que são necessárias para adentrar o campo com os militares enquanto um universo de elites. Somam-se elementos estruturadores da posição entre a pesquisadora e os entrevistados, como a idade e o gênero. Reflito sobre como a apresentação de si e da pesquisa possibilita (ou impossibilita) o acesso aos chamados guardiães institucionais, mediante a mobilização de uma imagem de neutralidade política.

A partir de uma experiência relativamente exitosa em adentrar o universo dos militares, reflexiono sobre as dificuldades de manutenção do acesso ao campo na medida em que se deteriora o controle político sobre os militares e estes adentram a cena política. Abordo a minha condição enquanto pesquisadora do sul global em um país no qual os militares ainda não se subordinaram ao poder político. Compreendo que estes elementos convocam a uma atuação política, o que exige, em momentos de crise, um posicionamento público. Por sua vez, estas atuações na cena pública potencialmente comprometem a imagem de uma certa neutralidade diante dos interlocutores pesquisados, que é fundamental na gestão de elementos da apresentação de si e da pesquisa quando iniciamos uma pesquisa de campo. Este ensaio apresenta a evolução dos meus temas e métodos de pesquisa em um contexto de crescente politização dos militares, quando a imersão etnográfica parece não ser mais possível.

Entrevistar os militares, entrevistas as elites1

Para contextualizar este relato para àqueles e àquelas que não estão tão familiarizados com o tema, cabe fazer algumas breves definições conceituais sobre o universo militar. A literatura classifica as forças armadas como uma instituição hermética, com uma clara demarcação entre os seus membros e o exterior. Os primeiros são submetidos a um treinamento e formação própria das chamadas instituições totais2 (Goffman, 1974, p. 111) visto que, assim como nos conventos, manicômios e prisões, nas escolas militares, “todos os aspectos da vida são realizados no mesmo local e sob a mesma autoridade.” Nestas condições, a vida dos internados é constantemente perpassada pela sanção, e o indivíduo não pode se defender de maneira usual, ocasionando na perda da identidade pessoal - o que Goffman compreende como um mecanismo de circuito. Nas palavras de Celso Castro, a construção da identidade militar requer a desconstrução da identidade civil, na medida em que existe um contraste entre o “aqui dentro” e o “lá fora” (Castro, 2004, p. 15). O universo militar é visto pelos militares como superior ao dos civis, seriam “mais organizados, mais bem preparados, mais dedicados à coletividade, mais patriotas.” (ibidem.)

São também, por definição, organizações voltadas para o combate: não existem contrapoderes que limitem a sua autoridade e logo, operam verticalmente, sem mecanismos de transparência e de prestação de contas. Para estas organizações, o mundo exterior é lido através de uma visão do combate, o que traz um aspecto importante sobre a classificação do trabalho do pesquisador, enquadrado seja como amigo ou inimigo da instituição (Castro, 2013; Leirner, 2009; Passos, 2022). Este aspecto se acentua em países cujas forças armadas estiveram orientadas para o combate contra o inimigo interno, como é o caso da região latino-americana.

Dito isso, é necessário enfatizar que alguns desafios para estudar os militares não são exclusivos deste universo. Assemelham-se àquelas dificuldades enfrentadas pela comunidade de cientistas sociais que se dedica ao estudo das elites políticas e econômicas. Afinal, trata-se de um “mundo difícil de penetrar”, revelador das assimetrias de poder existentes em uma sociedade, visto que as elites têm mais dinheiro e status, assumindo uma postura superior àquela do restante da população (Odendahl y Shaw, 2001, p. 23). Portanto, entrevistar militares brasileiros é também pesquisar um segmento da elite econômica e política do país. Nesta relação assimétrica, os pesquisadores e pesquisadoras são convocados a mobilizar as suas credenciais para convencer o interlocutor do propósito da realização da entrevista e do que será feito posteriormente com ela.

O sucesso em estudar as elites depende do conhecimento do/a pesquisador/a sobre a cultura da elite, em combinação com o seu estatuto pessoal e institucional. Ganhar a permissão para entrevistar as elites requer trabalho, criatividade, credenciais e contatos pessoais prévios que podem, potencialmente, abrir algumas portas (Odendahl y Shaw, 2001). E, claro, paciência para ter reuniões canceladas ou marcadas de última hora -o que, não menos importante, pode gerar problemas financeiros quando isto envolve viagens interestaduais ou internacionais- sobretudo quando estamos falando de jovens pesquisadores que trabalham em condições de precariedade. Sendo assim, é importante conseguir se encaixar na agenda do outro, quando e se a oportunidade surge.

Os desafios relacionados às características intrínsecas das instituições militares interagem com fatores situacionais que dependem das características do/a próprio/a pesquisador/a. Conforme Chamboredon et al. (1994) observam de maneira precisa: a maioria das pessoas entrevistadas ocupa uma posição de dominação que não pode ser objetificada senão a partir dos nossos próprios atributos. A dominação é uma potência de “geometria variável” (Chamboredon et al., 1994), visto que sua interiorização depende da posição que entrevistado/a e entrevistador/a ocupam socialmente e constituem, cada um/uma, um conjunto de atributos e atitudes que tem maior ou menor prestígio social. Uma entrevista, na visão das autoras, se apresenta como “uma interação entre dois indivíduos socialmente situados em relação ao mundo e um em relação ao outro” (Chamboredon et al., 1994, p. 117)3. Por outro lado, assumir o status de entrevistadora pode gerar perturbação por muitas vezes sermos percebidas como “invasivas” em relação à privacidade dos entrevistados ou à sensibilidade de certos temas para o indivíduo entrevistado.

Apresentação de si e da pesquisa: escolhas estratégicas para a entrada e a continuidade no campo

Feita esta introdução, vou contar um pouco sobre como foi minha experiência de fazer campo com os militares.

Foram cerca de 8 meses, divididos em duas estadias ao longo de dois anos no Rio de Janeiro, na Cidade do México e em Tijuana, nas quais entrevistei miliares de patente média e alta: coronéis, tenentes-coronéis e generais. A pesquisa era uma comparação da política de controle e de repressão do tráfico de drogas nas cidades do Rio de Janeiro e de Tijuana, compreendendo as fases de tomada de decisão, implementação e os seus efeitos esperados e inesperados sobre o mercado ilícito, o controle civil e as populações locais. O recurso de entrevista foi utilizado para ter acesso a informações que não estavam disponíveis em outros meios, compreender a visão de mundo e da própria instituição dos agentes envolvidos e reconstituir situações a partir de narrativas contrastantes - já que também entrevistei moradores de favelas e líderes da sociedade civil impactados pelas operações militares. Cada entrevista, portanto, ofereceu uma janela para compreender como diferentes formas de dominação social atravessam o universo civil-militar. Especificamente, compreendi a minha interação como um exercício de observação da interação entre civis e militares mais amplamente.

A “imposição” que os militares me geraram foi geralmente de maneira sutil, através do discurso sobre si mesmos. A internalização desta autoridade levou a me sentir um tanto paranoica pela escolha de falar com representantes da sociedade civil que eram críticos dos militares e, durante a interpretação dos dados, o exercício de separação do discurso oficial, contrastando com outros perfis de pessoas entrevistadas, exigiu um desvencilhar-se progressivo da mística militar. Mas retornemos à imersão etnográfica.

A maioria das entrevistas com oficiais ocorreu nas repartições militares, edifícios marcados pela simbologia castrense. O efeito que o uniforme militar e os ritos institucionais me causaram, me levou a refletir sobre as formas mais sutis com que a presença dos militares nas ruas corrói o tecido democrático, gerando uma aceitação pela imposição de uma estrutura mitológica do que é ser militar. Durante as entrevistas, fui “ensinada” sobre os mitos fundadores do Exército (o patrono Duque de Caxias), embora esta não fosse uma questão de pesquisa; a história que o Exército conta sobre si mesmo é uma mística que alimenta a visão de que os militares servem à nação, mesmo acima do povo, e que seriam de alguma forma mais confiáveis e eficientes do que agências civis. Esta mística militar, por outro lado, apoia que estes atuem em uma série de atividades que fogem da alçada da defesa externa4. A imersão etnográfica permitiu identificar e conhecer este discurso.

A apresentação de si e a apresentação da pesquisa começam quando entramos em contato pela primeira vez com a pessoa a ser entrevistada e nos introduzimos. No caso de elites, com as quais, desde o início, partimos de uma relação assimétrica entre mundo acadêmico e mundo político e econômico, entendo que aqui trata-se de definir estrategicamente como apresentar os objetivos da sua pesquisa, a partir da visão de quem nos escuta, para que se gere um interesse em falar por parte do entrevistado. No meu caso, enfatizei que se tratava de uma tese de doutorado que permitiria compreender como funcionam as operações interagências -um termo técnico empregado pelas organizações militares em seus manuais operacionais.

Utilizei o termo “operativos conjuntos” quando meus interlocutores eram mexicanos, o termo que os manuais de operação do México mencionam. Além de aspectos relativos às fases de decisão e de implementação da política, me interessava identificar casos de violação de direitos humanos das populações locais. Considerando que este é um tema sensível que poderia “incomodar”, o roteiro da entrevista foi elaborado de maneira que os interlocutores militares falassem sobre sua visão da atuação das associações de moradores nos locais durante os operativos, tangenciando o tema propriamente dito de violações -embora este eventualmente aparecia pela fala dos próprios interlocutores militares, e apareceu na fala dos líderes da sociedade civil que foram posteriormente entrevistados. Considerei que o importante durante a imersão etnográfica seria garantir a minha permanência no campo e que o efeito bola de neve funcionasse com a cooperação de entrevistados, a despeito do meu incômodo pessoal em escutar visões com as quais eu não estivesse de acordo. Fiz escolhas de táticas que favoreceriam, portanto, a minha presença e condicionassem futuras relações favoráveis à continuidade da pesquisa. Conforme (Besozzi, 2021) comenta a partir de sua experiência em conduzir uma etnografia com moradores de rua em Nancy (França), ganhar a confiança daqueles que pesquisamos exige saber ficar no seu lugar e não forçar interações -o que equivale, por exemplo, a fazer “muitas questões ou indagar sobre temas potencialmente sensíveis.”

Ao longo da pesquisa de campo, fui convocada pelo próprio método a manter esta posição de escuta, buscando não julgar aquilo que ouvia. Soma-se ao meu profissionalismo, uma inclinação pessoal que me trouxe mais convicção sobre o propósito da pesquisa. Meu avô paterno, um médico otorrinolaringologista simpático a ideias de esquerda, mas nem de longe comunista, foi preso durante a ditadura civil-militar logo após o golpe de 1964, sendo liberado 3 meses depois, e novamente em 1971 durante 10 dias para averiguação "de relações subversivas", o que gerou um trauma familiar, já que, depois de primeira prisão, ele perdeu o posto de trabalho. Eu esperava, de alguma maneira, uma conciliação com estes militares, agora supostamente democratas, pelo menos na minha visão inicial.

Quando realizei as entrevistas no Rio de Janeiro, era apresentada pelos próprios militares como uma doutoranda que estava estudando na França. Já na Cidade do México e Tijuana, eu era a pesquisadora “brasileira.” Ser brasileira foi uma vantagem para conduzir entrevistas no México em comparação com o status de pesquisadores estadunidenses. Soube pelo relato de uma pesquisadora mexicana que o acesso à biblioteca da Secretaria de Defesa Nacional havia sido negado a alguns deles recentemente.

Eu conduzi pesquisas no acervo hemerográfico da Revista del Ejército neste estabelecimento em 2016, 2017 e 2018; a biblioteca foi fechada durante a presidência de Andrés Manuel López Obrador5. Nas minhas visitas à biblioteca do Exército, que se localizava na planta baixa da sede da SEDENA (Secretaría de la Defensa Nacional) na Cidade do México, sempre era a única civil e era conduzida no interior deste prédio por um soldado. O meu celular sempre ficava guardado; seu uso era vetado. O meu passaporte ficava retido na recepção durante as visitas e eu só podia retirá-lo na saída do prédio. Estas micro regulações asseguram um espaço interno controlado pelos militares. Geraram também uma maior autoconsciência sobre o meu comportamento dentro, o que foi um fator de desgaste; somado à questão de gênero de ser frequentemente a única mulher no ambiente.

Em contraste, na minha experiência com conduzir entrevistas na ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), localizada na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, eu posso afirmar que a situação foi menos controlada. Claro, eu tive que passar pela identificação inicial na entrada, mas o meu documento de identidade não ficou retido (e tampouco me preocupou tanto este controle interno, já que não era uma estrangeira). Nas primeiras vezes, eu fui conduzida por um graduado (militar da baixa hierarquia) no interior da biblioteca, mas como fui diversas vezes ao local para conduzir entrevistas com tenentes-coronéis que estudavam no local, tive acesso livre em alguns dias, pois “já conhecia o local” e era reconhecida. Eu também podia usar o celular no interior da ECEME, o que claramente me deu uma sensação de maior liberdade, se comparo com as circunstâncias que me deparei na sede da SEDENA. Além disso, na ECEME, existem muitos professores civis que atuam nos cursos. Portanto, raramente era a única civil no ambiente da biblioteca.

Na apresentação de si, é certo que mobilizamos uma face em detrimento de outras. (Besozzi, 2021). O savoir faire do/a pesquisador.a reside em grande medida, conforme (Mauger, 1991) aponta, na sua capacidade de manipular a situação da pesquisa em seu próprio favor. Esta “gestão das aparências” (Besozzi, 2021) no meu caso foi especificamente favorecer o meu lado pesquisadora, que não se envolve com questões políticas. Me apresentei sumamente interessada em conhecer o discurso dos militares, em detrimento de meu lado mais politizado, que foi apagado para o fim da pesquisa. Entendo que este apagamento também implicou uma convocação contínua de não se envolver com temas políticos para o sucesso da pesquisa.

Apesar de ser uma instituição, como eu pontuei no início deste ensaio, hermética, seria leviano da minha parte não apontar uma certa facilidade que senti em termos do interesse dos entrevistados em ser ouvidos no Brasil. Nitidamente, existia à época da realização da minha pesquisa um interesse em tornar pública a versão dos militares sobre as operações para a garantia da lei e da ordem (2016-2018). No período em que conduzi a pesquisa na ECEME, havia também um esforço por parte do Exército de aproximação em relação à sociedade civil, entendendo aqui a universidade como uma instituição de formação da opinião pública. Isto trouxe um maior interesse, pela parte dos meus interlocutores militares, em conversar comigo. Por outro lado, havia a expectativa da comunidade acadêmica especializada em estudos de defesa de que estávamos em um período de democratização das relações civis-militares. Como tenho o costume de comentar em palestras sobre o tema, há alguns anos atrás, seria impensável pensar que parte do comando das forças armadas embarcaria numa tentativa de golpe militar em 2023. Esta minha predisposição a ver os militares como passando por um processo de democratização auxiliou na minha predisposição pessoal em escutá-los.

Caberia fazer uma reflexão sobre o gênero, pelo meu gênero e pelo fato de ser uma instituição gendrada, orientada por uma lógica masculina (Britton, 2000). No entanto, como este já foi o tema de um capítulo que escrevi6, irei apenas ressaltar que o gênero foi duplamente um incômodo e uma peça auxiliar na imersão etnográfica. Incômodo porque eu tive que estar mais atenta à minha forma de vestir, sujeita a algumas situações de assédio e subestimada em certas situações. Porém acredito que foi precisamente a subestimação que permitiu que entrevistados me explicassem temas que poderiam, em outra situação, ser considerados óbvios - isto foi certamente uma vantagem. A subestimação pode ter diminuído o potencial incômodo que uma pesquisadora representa para os interesses institucionais. Porém, eu diria que esta vantagem foi de curta duração. Terminou quando passei a ser uma intelectual com um certo reconhecimento na minha área de atuação.

Cooptação e conflito: a neutralidade axiológica posta à prova diante de mudanças no contexto de realização da pesquisa

As forças armadas são uma instituição sedutora para quem deseja cooperar com ela: durante a pesquisa de doutorado, recebi convite informal de trabalho no Ministério da Defesa, o que não seria nada mal para uma jovem pesquisadora que estaria rapidamente desempregada após a sua defesa de tese. Embora este convite não tenha se formalizado para além de uma conversa ao fim da entrevista, acho importante resgatá-lo como um elemento que indica uma forma de cooptação daqueles pesquisadores que podem potencialmente servir à agenda da própria instituição. Nesta mesma ocasião, que foi uma entrevista com oficiais que trabalhavam no Ministério da Defesa, eu havia sido no início da entrevista indagada sobre minha participação no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 2008, quando havia recém ingressado no curso de relações internacionais. Então, senti que havia, ao fim e ao cabo, ganhado a confiança dos meus interlocutores após a entrevista.

É certo que entrevistados também buscam o nosso currículo quando marcamos uma entrevista -é muito comum eu receber notificações de que pessoas visitaram a minha página Linkedin após agendar uma entrevista-, este fato é especialmente importante quando se trata das forças armadas, com recursos para investigar o nosso passado.

Ao final da minha pesquisa de doutorado, havia um número significativo de militares entre os meus contatos telefônicos. Esta entrada facilitada ajudou em conduzir a minha pesquisa de pós-doutorado, quanto também realizei entrevistas na ECEME com uma relativa facilidade, no ano de 2019. O próprio fato de conseguir acesso a um universo que é considerado fechado foi sem dúvidas um benefício na seleção para o pós-doutorado como bolsista em um contexto, que já se tornou o normal, de escassez de bolsas de pós-graduação. De certa maneira, apesar de ter algumas críticas sobre os militares, entendo que havia aceitado a posição de uma pesquisadora qualitativa, sujeita a me “calar” diante de situações que pudessem estar em desacordo com os meus princípios pessoais para o bom andamento da pesquisa. Também havia compreendido que era lida por militares. Isto se tornou bastante claro quando eu fui convidada para dar uma palestra online durante a pandemia sobre o papel dos militares nesta situação, para uma das mais prestigiosas universidades brasileiras, e o moderador do evento notou que havia um significativo público militar.

Após finalizar o pós-doutorado, que era uma pesquisa sobre doutrinas militares de atuação em meio a populações civis, iniciei outra agenda de pesquisa, as ações cívico militares. Fazia um esforço para garantir a manutenção do acesso ao campo e inclusive rejeitei a participação em um seminário em Florianópolis, localizada no sul do Brasil, que era sobre o papel dos militares na política. Eu estava interessada em realizar entrevistas em um batalhão na cidade para compreender o tipo de ação que as forças armadas fazem quando afirmam realizar ações cívico militares e ponderei que aparecer como uma intelectual publicamente criticando a participação deles na política não ajudaria na minha apresentação. Compreendia que o meu papel como pesquisadora era entender, compreender, relatar, comunicar -e não fazer uma crítica aberta às forças armadas. Acreditava também que existia um freio institucional na capacidade de politização dos oficiais -ledo engano. Discordava das leituras acadêmicas mais nefastas sobre militares como uma organização ainda atormentada pela ameaça comunista - como se nada tivesse mudado de 1964 para cá.

Porém, a situação política começou a declinar visivelmente no país no ano de 2022 quando o presidente à época, em seu último ano de mandato, demitiu o comando das forças armada e pôs no seu lugar comandantes militares abertamente simpáticos da sua ideologia. Logo, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) “convidou” os militares a participar como fiscais do processo eleitoral. A tese do voto impresso ganhava força e eu, como moradora de um estado no qual a direita conservadora possui grande adesão, percebia nas ruas a real possibilidade de um presidente autoritário ser reeleito. Esta conjuntura que se deteriorava pesou na minha decisão de não fazer pesquisas diretamente com militares até o final do ano.

Isto ficou claro quando conduzi uma entrevista com um coronel do Exército em 2022 que coordenava uma projeto do Exército na área social. Não estávamos falando da política propriamente, mas ele justificou por que militares ocupavam cargos no Executivo à época e frisou que isto não era um problema para a democracia; estávamos há poucos meses de uma eleição bastante acirrada e, confesso, o meu ânimo estava propenso a discussões. Neste momento, estou consciente que não soube “ficar” no meu lugar e a minha decisão de interrompê-lo prejudicou a continuidade da pesquisa, pois ele, que era um ator chave para compreender as ações cívico-sociais do Exército, nunca mais respondeu às minhas mensagens.

Após este fatídico episódio, fiquei à vontade para me posicionar politicamente contra a politização dos militares quando procurada pelos meios de comunicação, sobretudo nos anos de maior instabilidade política que atravessaram a transição de governo. Mas entendo que o peso desta escolha pode ter sido alto, afinal de contas, este posicionamento público compromete a imagem de neutralidade que é importante para realizar entrevistas com membros da instituição.

Conclusão

Como fazer campo com os militares à era dos neopopulismos permanece um fator de indagação, já que a apresentação de si exige certa flexibilidade para poder gerir esta situação em favor do bom andamento da pesquisa. Uma vez que ganhamos acesso aos interlocutores militares, a questão é como manter esta confiança em contextos políticos voláteis que tem caracterizado grande parte dos países latino-americanos. Entendo que a minha capacidade de escuta foi gradualmente solapada pela politização dos militares brasileiros, mas talvez isto possa mudar conforme o contexto político, e as gerações de oficiais, também se transformem -ao menos o meu lado mais otimista espera isto. Espero com este ensaio ter contribuído para o debate sobre os dilemas que enfrentamos quando entrevistamos elites, e a divisão interna que isto pode gerar entre princípios pessoais e o ofício da pesquisa qualitativa.

Referências

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*La versión en español de este artículo fue publicada en CONfines 38 con el título “Mantener el acceso al campo: una visión desde la inmersión etnográfica con militares”. Agradecemos el interés de la autora por publicar este texto en ambos idiomas.

1Há partes desta seção que aparecem no capítulo “Pesquisando uma instituição gendrada: mulheres pesquisadoras e o estudo dos Militares” a ser publicado no livro Mulheres, Militarização/Militarismo.

2Termo cunhado por Erving Goffman (1974, p. 111): “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrativa”.

3Tradução da autora. A citação completa, no original, é: “un entretien se présente comme une interaction entre deux individus socialements situés par rapport au monde et l’un par rapport à l’autre.”

5Segundo informação oficial do site da SEDENA, atualmente existem três bibliotecas do Exército com acesso para civis nas cidades de Guadalajara, Puebla e San Luís Potosí. Seria necessário checar pessoalmente como funciona este acesso. Geralmente, existe um horário específico para o acesso de civis às bibliotecas militares e nem sempre esta informação está disponível facilmente.

6Ver nota de rodapé 1.

4No meu livro, “Democracies at War Against Drugs: the Military Mystique in Brazil and Mexico” (Passos, 2022), desenvolvo o conceito de mística militar.

Recebido: 31 de Janeiro de 2024; Aceito: 14 de Abril de 2024

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